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Queremos Elvis!

segunda-feira, dezembro 10th, 2007

               O homem chamado Giuliano Pisciota estava de pé, de frente para a janela, cujo vidro tinha a espessura suficiente para barrar um míssil ou a bala disparada por algum atirador. Ele encostou a palma da mão esquerda no vidro e inclinou o corpo até que sua testa encostasse no material transparente e frio.

      Fazia um dia maravilhoso lá fora e, por alguns instantes, ele esqueceu de suas preocupações. Os operadores de tráfego aéreo chamavam esses dias, em sua gíria, de “Tevi” (teto e visibilidade ilimitados). Por um momento ele desejou poder caminhar descalço pela grama macia, bem cortada. Ou apenas podar as árvores, exatamente como o rapaz que passava embaixo da janela naquele momento. Sem responsabilidades, pressões, pesar os prós e contras de qualquer decisão, por menor que ela fosse. Mas ele sabia que isso, infelizmente, era impossível. Cada gesto, cada palavra sua, movimentava milhões de um lado para o outro e influenciava a vida de bilhões de pessoas. Pois ele era o Presidente das Américas Unidas.

      Respirou fundo e deu meia-volta. Olhou para os homens e mulheres sentados na mesa principal, movimentando-se de maneira frenética.

      “Parece que eles são movidos somente a café, cigarros e garrafas de água mineral” -  pensou.

      Secretários, assistentes, militares, todo mundo importante nas Américas Unidas estava ali. Os de maior grau ficavam sentados em suas cadeiras, lendo os intermináveis relatórios que chegavam de minuto a minuto. E seus subordinados, pessoas de alta confiança e competência absoluta, iam e vinham, como se fossem sinais eletromagnéticos em cabos de fibra ótica.

      O Presidente sentou-se. Às suas costas via-se o brasão circular com a águia, símbolo da liberdade. Nesse exato momento ele estendeu as mãos para o alto e inclinou sua cadeira para trás. Ele viu, de cabeça para baixo, a figura da águia.

      “A liberdade! Nossa amada liberdade. Segundo as atuais circunstâncias” - pensava ele  - “ela desaparecerá da face da Terra. A partir de hoje seremos escravos”.

      Estendeu a mão para pegar a garrafa de água mineral à sua frente. Tomou um gole enquanto pensava rapidamente. “Ajeitou” a voz e, após muito tempo de reflexão, falou:

      - Senhores! Como estamos?

      Todos pararam no mesmo instante o que faziam e olharam para o homem sentado na ponta da mesa. Um general mais descuidado havia se esquecido por completo de onde estava e havia colocado os pés sobre a mesa, na tentativa de dormir durante alguns poucos minutos, por breves que fossem…

      O Presidente era em muitos sentidos um liberal, um progressista, mas em outros extremamente conservador. Hierarquia, para ele, era um dos pilares de uma democracia forte. Algo sagrado. Respeito à autoridade superior, um de seus principais credos. Mas ele também era um homem justo, sabia a enorme tensão pela qual passavam aquelas pessoas, naquela ocasião especial.

      “São todas pessoas calejadas, experimentadas. Mas esse acontecimento é único. Não há como tirar conclusões ou criar hipóteses para algo tão inesperado…”

      Se a humanidade superasse essa crise, os historiadores, no futuro, descartariam a contagem de tempo ocidental-cristã, A.C. (Antes de Cristo) ou D.C. (Depois de Cristo). Passariam a adotar o “Antes da Crise” e o “Depois da Crise”. Ou até mesmo, conforme sugestão de um repórter da Newsmonth, “Antes Deles” e “Depois Deles”. Isso se houvesse o “depois”, sugeriram outros repórteres quase que imediatamente, em suas colunas escritas às pressas, no calor desse grande fenômeno.

      Na ponta da mesa, à esquerda do Presidente, sentava uma ítalo-americana de 38 anos chamada Carla Holdsworth. Alta, vigorosa, especialista em direito corporativo (especialmente o litigioso), era uma mulher corajosa. Ela era a Secretária de Defesa Mundial, juntamente com seu colega Jean L´apiel (da Europa) e o russo Vladimir Ilitch Cheriov (da Comuna). Os três formavam o

grande “Triunvirato” da defesa. A cada período de 3 anos, um deles assumia a liderança das decisões em escala global e, como estavam em 2219, Carla ocupava esse posto atualmente.

      Mas esse acontecimento fizera ela perder a coragem. Todos esperavam que a primeira voz a se levantar da mesa fosse a dela. Mas ela ficou quieta, abatida.

      Ela arrumou os papéis sobre a mesa e instintivamente levou a mão esquerda até o alto da cabeça para ver se o coque estava no lugar. Isso e um traje azul-marinho passavam aquela imagem de respeitabilidade, aliada a sua capacidade de articulação e seu passado como advogada competente, produziam uma boa impressão por todos os lugares onde passava. Mas ela estava estranhamente apagada nesse momento.

      ”Ela não está preparada para momentos de crise.Uma pena, mas se sairmos dessa, ela será substituída” - pensou o Presidente.

      Outro pensamento rápido passou pela sua mente:

      “E se clonássemos novamente o Henry Kissinger?”

      Pensou nas conseqüências em ter Henry Kissinger, o imbatível “Sr. Secretário de Defesa”, no posto pela décima-segunda vez, desde sua primeira morte há tantos anos atrás…

      “Concentre-se Giuliano, concentre-se…”

      - Tentamos nos comunicar de todos os postos de escuta espalhados ao redor do globo, senhor. Sem resposta.

      - Como sem resposta? Isso é impossível! Afinal, o que eles querem?

      Ninguém mais falou nada. Não havia o que falar. Aos poucos a correria frenética voltou com força, e tudo estava como antes. O relógio na sala marcava 13 horas.

      O Presidente sentou em seu lugar e recomeçou a ler o relatório de progresso da situação. Aparentemente aqueles serem possuíam tecnologias muito mais complexas que a terrestre, pois simplesmente tomaram a Terra de assalto, deixando imensas naves em órbita espalhadas por diversas cidades, especialmente as mais populosas. Quem morasse em Londres, Nova Iorque, Los Angeles, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Nova Delhi, Toronto, Paris, Frankfurt, e outras milhares de cidades, teria a impressão de que um teto metálico havia surgido no céu. Tão grande era a extensão dessas naves que dificilmente alguém que estivesse no chão conseguiria avistar as duas extremidades dela só com o uso da visão.

      Quando radiotelescópios e as forças armadas de diversos países notaram aqueles estranhos objetos, era tarde. Diversos caças tentaram contato e houveram casos de ataques com mísseis, que aparentemente, nem arranharam as naves alienígenas. Houve o contra-ataque, é claro. E todos os caças agressores foram destruídos por ondas subsônicas.

      - Ondas subsônicas? Essa não. Nós não estávamos trabalhando nisso?

      - Perfeitamente, senhor Presidente. Mas nossas ondas são efetivas para alvos a no máximo 200 metros. Essas naves dispararam seus raios de uma distância até 100 vezes maior - respondeu um analista próximo.

      “E porquê nenhuma das naves sobrevoa Washington?”.

      Talvez nós não sejamos importantes para eles. Eles sabem que o poderio norte-americano, a única superpotência da Terra, não é párea para eles. Eles atacaram sem hesitação, então sabem disso…

      Horas após a invasão, as comunicações terrestres estavam sob controle daqueles seres. Tudo o que indicasse a preparação de um contra-ataque, sinais militares, códigos de alerta, tudo era suprimido pela interferência daquelas naves, pelo uso de uma tecnologia muito superior à nossa.

      O presidente leu o relatório e ficou surpreso. Nenhuma exigência. Nenhum sinal. Ficou pensativo durante algum tempo e notou que precisava ir ao banheiro. Caminhou até lá e, ao passar por uma janela no corredor, olhou mais uma vez para o jardineiro calmamente cuidando do jardim lá fora. Como ele poderia estar tão calmo?

      “Esses dróides. Talvez eles se sintam escravos nossos e qualquer invasor, por mais estranho que possa parecer, possa vir a ser o salvador deles…”

      Tirou esses pensamentos da cabeça e fechava o zíper da calça quando ouviu a voz no corredor de um auxiliar:

      - Senhor, senhor - ele entrara no banheiro e quase derrubara o presidente, que estava próximo da porta de saída - desculpe senhor.

      - O que aconteceu?

      - Eles… eles… el..

      - Diga homem! O que foi?

      - Eles fizeram contato.

      De volta à sala principal.

      - O quê isso significa? Eles fizeram contato mesmo? Mostram sinais de possível agressão?

      - Não, senhor. Olhe.

      Todos sentaram à mesa quando as cortinas baixaram e o projetor mostrava as imagens em tempo real. Exatamente seis naves, cada uma ocupando o vértice de um hexágono perfeito, dispararam estranhos raios para o centro daquela figura geométrica imaginária.

      - Onde fica isso?

      - Em algum ponto do Oceano Atlântico.

      Os sinais combinavam-se e formavam imagens. Era como se as naves fossem projetores de cinema e o céu azul sobre algum ponto do Atlântico, a tela branca. Ninguém sabia que tipo de tecnologia possibilitava aquilo, mas via-se que dava resultado. Uma holografia com uma área de mais de trezentos mil metros quadrados mostrava uma imagem em tempo real do planeta Terra.

      As naves transmitiram essa imagem para os satélites (“como eles sabem como funcionam nossos satélites”) e em pouco tempo toda a população do planeta, que havia simplesmente cessado toda a sua atividade rotineira, olhava para aquele holograma da Terra. A imagem ficou assim, mostrando a Terra durante exatamente uma hora e subitamente mudou: ao lado do planeta apareceu um símbolo composto por diversos elementos gráficos desconhecidos à espécie humana.

      As pessoas que tentavam contato com os seres retransmitiram o sinal para eles, esperando algum sinal. Imaginaram que se tratava de um teste, como se “eles” quisessem medir nossa capacidade de inteligência.

      Aquilo não deu resultado. Quando analistas e gênios matemáticos quebravam a cabeça e supercomputadores esgotavam suas capacidades de processamento quase infinito para resolver aquele problema, as imagens começaram a mudar rapidamente…

      - O quê eles estão fazendo? - perguntou um observador inglês, enquanto falava em videoconferência com colegas de todo o globo, que estavam reunidos à várias horas sem interrupção trocando impressões sobre aquilo…

      Ninguém falou nada. Aquilo era muito diferente, algo que jamais havia ocorrido na Terra. Nem nas mais loucas fábulas de ficção científica algo semelhante à aquilo poderia ter sido imaginado. Quando muitos rascunhavam em folhas de papel e utilizavam programas de computador para tentar entender aquilo um brasileiro do Centro de Observação Astronômica, deu a sua opinião. Foi a opinião que, segundo alguns, fez com que entrássemos no jogo…

      - Eles são muito mais avançados do que nós. Disso não resta a menor dúvida. E é certo que eles estão tentando comunicar-se conosco. Se fosse de outra maneira eles já teriam arrasado à Terra, começando pelas grandes cidades que estão sob a sua mercê. Talvez eles estejam tentando achar o canal certo, como se fossem homens comuns mudando o receptor de um rádio, à

busca de uma melhor recepção. De um entendimento melhor das coisas. Nós buscamos a resposta de uma recepção perfeita, eles buscam a recepção perfeita de que foram entendidos!

      Opinião aceita e diversos refletores comandados por computador começaram a mandar para ao alienígenas todos os tipos de sinais produzidos pelo homem na Terra: sinais de rádio, a representação dos alfabetos em todas as línguas, os números, sinais de pontuação, código-morse, etc etc etc…

      “Eles” devem ter entendido, pois os sinais na enorme holografia começaram a mudar lentamente. Era como se falassem:

      “Se vocês entenderem, nos digam!!!”

      Quando números apareceram, a transmissão de sinais para as naves parou. Era o nosso sinal. Agora a holografia, mostrava ao lado um relógio digital semelhante aos utilizados em relógios por todo o planeta. Susto maior foi quando o relógio passou automaticamente de um sinal 1517:422:12, que aparentemente não queria dizer nada, para 24:00:00. Então o relógio começou uma contagem regressiva: 23:59:59, 23:59:58, 23:59:57…

      Era o sinal de alguma coisa. Aquilo fora ontem, dia 09. Hoje, às 14 horas do dia 10, o relógio na enorme holografia mostrava 09:15:14. E continuava em sua corrida até 00:00:00. Foi então que a holografia mudou novamente…

      A imagem da Terra e do relógio digital passaram para o fundo da imagem, como se fossem um papel de parede, assumindo um tom opaco. À frente apareceu outra imagem da Terra e ao lado o relógio digital marcando 00:01:00.

      A expectativa das pessoas ao redor do globo aumentava enquanto o relógio passava para 00:00:59. Depois 00:00:58…

      Parecia que aquele minuto não teria fim. Quando o relógio chegou à contagem de dez segundos do instante zero, a imagem da holografia da Terra (seria a visão exata de um observador que estivesse situado à uma órbita média exatamente a um quarto da distância da Terra à Lua, calculou um Físico das Itália) mostrou as diversas naves alienígenas afastando-se da Terra.

      Alguns achavam que era um sinal inequívoco de que eles iriam embora se não conseguissem contato. Acreditaram que agora não existia mais perigo.

      Porém, quando o relógio chegou à 00:00:00, uma enorme explosão acabou com a vida no Planeta, explodindo tudo o que existia em direção ao espaço, para todas as direções. Pessoas começaram a chorar, desesperadas, enquanto outras ficavam olhando, boquiabertas, para o que haviam visto…

      Então a imagem da Terra destruída sumiu e a imagem de fundo voltou a ocupar seu lugar na holografia. Mostrando a Terra intacta e o relógio correndo em direção ao instante zero…

      - Meu Deus! - disse o Presidente - Eles querem acabar com nosso Planeta. Mas qual o motivo?

      Três horas mais tarde e ninguém havia resolvido o enigma. Agora, todos os centros de radio-telecomunicação espalhados ao redor do Planeta mandavam todo e qualquer tipo de sinais para as naves, na busca de um melhor contato com aqueles seres. Imagens de nossa arte, shows de música rock, óperas italianas, mantras orientais, tudo o que era possível era transmitido para as naves…

      Foi então que tudo mudou…

      Estudiosos do futuro criaram várias hipóteses, mas a mais famosa diz que um locutor australiano utilizou os equipamentos de uma rádio local, onde trabalhava, para enviar para “Eles” toda uma seqüência de sons e imagens de bandas e artistas do meio musical de todos os tempos.

      Ele havia começado com os mais recentes, de todos os estilos, limitado apenas pela quantidade de fitas-disco disponíveis na rádio. Ele não mandava uma música por vez, ele colocava dez fitas-disco ao mesmo tempo e comprimia a seqüência toda em sinais rápidos, enviando tudo em um único pulso de freqüência. Imaginava que aqueles seres, sendo tão avançados, devessem

ter equipamentos para separar os sinais de maneira apropriada.

      Ele estava certo. Ninguém sabia com certeza, mas eles armazenavam toda a informação que chegava até suas naves. Sabiam muito sobre a raça humana, mas não haviam encontrado o que tinham vindo buscar.

      Foi então que um certo sinal chegou e tudo mudou…

      - Presidente, Presidente!

      Ele dormia sobre um divã, depois de ordenar a todos que fosse imediatamente comunicado se novos acontecimentos exigissem. Pulou de uma só vez e correu para a sala principal. Então ele viu a holografia…

      - Nossa mãe! Esses “hackers” vão acabar nos matando. Como eles conseguiram interferir nos sinais?

      - Senhor, esse é o sinal transmitido por Eles.

      - Não acredito.

      A holografia mostrava uma imagem de um homem dançando, mexendo os quadris. Na hora o Presidente não reconheceu a imagem. Demorou dois segundos para uma faísca brilhar em seu cérebro:

      - Elvis, “The Pélvis”.

      Elvis Presley? Não havia dúvidas. Produtores de televisão imediatamente resgataram imagens de arquivo de séculos atrás e constataram que aquela imagem havia sido gravada em um show ao vivo transmitido da cidade de Lãs Vegas, Nevada, Estados Unidos da América, no dia 14 de Outubro de 1971.

      Aparentemente eles haviam captado as ondas televisivas que viajavam à velocidade da luz, escapando do sistema solar. E, curiosos, vieram conhecer aquele estranho ser. A pergunta imediata de todos os especialistas era:

      - Mas… Elvis Presley, o eterno Rei Do Rock, há tanto tempo morto? Não podia ser Gandhi, Kennedy, Einstein, Paul McCartney ou, talvez, até mesmo Hitler?. Ou ainda, quem sabe, Jesus?

      Mas a grande pergunta na mente de todos era: o que eles queriam com Elvis? Qual a relação daquela imagem dele na holografia com a possível explosão do Planeta? Os analistas e algumas pessoas mais esclarecidas ao redor da Terra chegaram a mesma conclusão rapidamente. Foi um contínuo com cara de bobo que informou ao presidente:

      - Senhor, eles querem Elvis. Senão, a Terra será destruída…

      - Mas… Elvis está Morto!

      Todos olharam para o Presidente. Ele sentiu-se envergonhado desse comentário.

      - Reunião. Cinco minutos!

      Ordens como essa indicavam que o Presidente queria apenas os mais graduados consigo. Era a hora de colocar os pensamentos em ordem.

      - Então é isso? Gastamos milhões, bilhões de dólares em pesquisas de sinais de vida extraterrestre! Gerações e gerações de pessoas deram o seu tempo, dedicaram suas vidas para tentar resolver aquela velha questão em suas mentes: existe vida fora da Terra? Que ironia. Existe sim. Uma raça mais avançada que a nossa. E eles chegam aqui para compartilhar seu conhecimento conosco? Não. Tudo o que eles querem é Elvis Presley…

      - Senhor, o tempo está correndo. Dificilmente conseguiremos algum tipo de contato com esses seres. Precisaríamos de muito tempo para isso… E eles não nos deram escolha. Eles querem Elvis até… - olhou para o monitor que mostrava a holografia - Meu Deus! Temos apenas 3 horas!

      - Sei disso, sei disso. Mas Elvis já morreu. Está podre. Se pelo menos tivéssemos guardado sua combinação genética… poderíamos cloná-lo, certo?

      Um dos militares presentes, chefe do setor de experimentos das Forças Armadas, falou:

      - Como o senhor mesmo falou, senhor. Poderíamos, se tivéssemos o material genético dele…

      - Tenho uma idéia - disse Carla.

      - Somos todos ouvidos!

      - Todos os anos há uma certa… bem… um encontro… sabe?

      - Não, Carla. Diga.

      - Todos os anos em Las Vegas há um encontro de sósias de Elvis Presley…

      - E?

      - Bom, não seria má idéia encontrar alguém que saiba imitar Elvis e que se vista de maneira igual…

      - Carla, essa foi a melhor idéia do dia. Quanto tempo dem…

      Imediatamente arquitetam um plano de ação. O tempo é curto e o objetivo deles já conhecido. Claro que eles não podiam divulgar esse plano para a população. Eles poderiam estar escutando os sinais produzidos por nossas primitivas formas de comunicação.

      - E se eles estiverem lendo nossas mentes? - perguntou a repórter da Newsmonth.

      - Acreditamos que não - respondera o cientista - eles nos testaram durante algum tempo com o uso de sinais. Se fossem capazes de ler nossa mente eles deveriam apenas abduzir algumas pessoas para saber o que é e como funciona a raça humana…

      - Mas as pessoas não são muito diferentes, professor?

      - Sim e não. Cultura, costumes, formas de pensar, diferem muito de lugar para lugar. Mas o funcionamento do corpo humano, do cérebro, isso não. Somos todos iguais. Lembre das pes…

      Mas alguns repórteres, daqueles que trabalham em jornais sensacionalistas, haviam divulgado, apressadamente, notícias misturando suspense com algumas teorias apocalípticas, o que levara milhares, milhões de pessoas a entrar em alerta…

      As pessoas, em todos os países, em todos os lugares, achavam que o fim havia chegado. Multidões reuniam-se em cultos religiosos em diversos lugares, outros se suicidavam, orgias misturavam homens, mulheres, crianças e velhos. Em todos os lugares os saques eram freqüentes, maridos abandonavam as esposas e os filhos para fugir com a amante para algum refúgio nas montanhas, empregados cuspiam nas caras dos patrões e despejavam toda uma torrente de palavrões contra estes, colegas de faculdade declaravam o amor pelo colega do mesmo sexo, mulheres colocavam o melhor perfume, a melhor roupa e saíam à rua, oferecendo-se ao primeiro  homem que passasse pela frente…

      A humanidade estava desesperada. O fim estava próximo e tudo valia.

      Quando encontraram um sósia de Elvis, implantaram um chip de alteração de voz em sua traquéia, para que a voz ficasse igual. Foi um trabalho recorde, vários peritos gravaram todas as gravações, entrevistas, shows, filmes, enfim, todas as vezes onde se ouvia a voz de Elvis, eles gravaram. Passaram para os computadores, desprezando os registros de sua voz na época em que ele era muito jovem e no final da sua vida, quando as drogas e a bebida haviam surtido seu terrível efeito e finalizaram o chip.

      Quando o sósia, um rapaz belga já morando há muito tempo nas Américas Unidas, falava, todos ouviam a voz de Elvis. O plano havia funcionado até ali. Deram-lhe instruções rápidas, e implantaram um plugue de comunicação instantânea no ouvido esquerdo. Se ele precisasse de alguma informação, os técnicos a repassariam imediatamente.

      Já estava anoitecendo. Os militares, ao redor do mundo, ordenaram o desligamento total das luzes em todo o Planeta. Somente ali, em Washington, via-se luz, a luz de diversos refletores de alta potência dispostos em círculo. Esse era o sinal para Eles.

      E Eles viram. Uma das grandes naves deslocou-se suavemente, em alta velocidade, de Nova Iorque para Washington, dominando todo o espaço aéreo da cidade.

      - Agora é com você - disse o Presidente, admirado com aquele teto metálico que cobria todo o céu de Washington - boa sorte!

      - Vou tentar, senhor.

      O sósia foi levado até o gramado, ficando exatamente no centro do círculo. Não havia como eles não o virem. A nave chegou a brilhar por um instante e todos viram uma espécie de porta, abrir-se, para a saída de uma nave menor. Não era um disco, mais parecia uma esfera.

      - O quê foi esse brilho? - perguntou o presidente, confortavelmente sentado em sua sala.

      - Provavelmente foi uma pequena interrupção no sistema de proteção deles. Talvez uma barreira eletro-magnética, sei lá. Aquele brilho foi o momento do desligamento, para que aquele, ah, pequeno módulo, pudesse sair.

      O sósia encontrava-se no gramado, com um pouco de medo. Ficou mais tranqüilo quando se lembrou das palavras de um dos analistas:

      “Não se preocupe. Se eles quisessem acabar conosco, já o teriam feito. Lembre-se: para Eles, você é o nosso líder. Elvis é o nosso líder”.

      Ele ficou olhando para o alto enquanto a pequena nave descia. Todas as pessoas ao redor do mundo, ao menos as que não haviam fugido para as montanhas, ficaram grudadas aos aparelhos de televisão, viam a insólita cena.

      A nave chegou bem perto dele, ficando a uma altura de 10 metros do solo, e parou. Os cientistas ficaram espantados ao ver como aquele aparelho voador conseguia ficar suspenso no espaço, sem qualquer sistema de propulsão visível. Muitos imaginaram que aquilo se tratava de uma raça que conhecia o funcionamento da antigravidade. Sim, diziam, é um repulsor de gravidade…

      O sósia não sabia o que fazer. Então ouviu a voz ecoando dentro de seu ouvido, através do plugue de comunicação:

      - Levante a mão, Elvis. Faça o sinal da paz.

      O sósia, todo de branco, usando roupas parecidas com as que Elvis usava, toda cheia de enfeites, levantou a mão para saudar os alienígenas e mostrar nossas intenções de paz. Foi quando um raio amarelo saiu do pequeno bólido e o envolveu completamente…

      - O quê está havendo? - perguntou o Presidente.

      - Parece que eles o estão analisando, senhor.

      Ninguém conseguia ver o que acontecia. Alguns câmeras focalizavam o local onde estava o sósia, mas a luz amarela envolvia-o completamente. Tudo o que viam era o clarão.

      - Olhem!

      Alguém havia apontado para o monitor que mostrava a holografia projetada sobre o Atlântico. Ela havia mudado. Agora mostrava, em detalhes, o que ocorria no interior do facho de luz amarela: eles o estavam analisando. Não dava para entender a língua utilizada, mas pelos elementos que apareciam, alguns perceberam a analogia e suspeitavam que se tratava de uma espécie de análise.

      - Senhor, ouça - disse um dos analistas, formado em bioquímica - isto chegou de Vancouver, Canadá -  mostrou um pedaço de papel em sua mão - eles o estão analisando.

      - Analisando?

      - Sim. Pelo menos, é o que parece…

      A holografia mostrava um corpo humano, aparentemente o do sósia, sendo analisado (mais parecia uma abreugrafia, antigamente chamada, vulgarmente, de exame de raios-X).

      Vários sinais apareciam em uma coluna ao lado, formado por linhas compostas de sinais indecifráveis. Ao lado de cada um dos sinais via-se uma espécie de barra diagonal composta por outros sinais igualmente indecifráveis. Lembrava vagamente uma tabela onde eram mostrados os elementos componentes de alguma coisa, mas também lembrava a legenda de um mapa geopolítico do globo terrestre.

      Todos, mentalmente, tinham suas próprias teorias para aquilo. Talvez estivessem verificando a composição molecular de Elvis, utilizando uma tecnologia desconhecida para isso. Ou estivessem analisando-o e guardando sua “pista genética”, para mais tarde, talvez, cloná-lo.

      Alguns haviam notado, outros não. Mas o relógio que marcava o tempo até o instante zero, o momento da explosão da Terra, havia parado. Estava em 02:13:49. As que haviam notado gritavam e pulavam de alegria, pois achavam que estavam salvas. Até que então…

      O raio amarelo desapareceu e a pequena nave voltou para dentro da nave-mãe, em velocidade super-rápida. A trajetória foi impressionante: primeiro ele deslocou-se paralelamente à superfície da Terra, até ficar exatamente abaixo da abertura da nave-mãe e subiu em alta velocidade. Tudo em menos de um segundo. Inexplicável era ele ter feito esse movimento sem curvas, sempre em ângulo reto.

      - Onde está nosso homem? - disse alguém próximo ao Presidente.

      “Elvis” não estava mais lá. Até que alguém focalizou o chão…

      - Senhor, veja o que um dos “nossos” está filmando.

      Todos olharam para o monitor número 34: onde antes estava o sósia de Elvis, agora se via os restos de alguma coisa queimada. Na verdade não era queimada, era como se o corpo tivesse sido sugado de todas as substâncias líquidas. Somente matéria pesada continuava ali. As roupas,

inexplicavelmente, estavam intactas. Parecia uma roupa saída da máquina de lavar, vestindo uma múmia de 5.000 anos de idade…

      - Puta merda - disse o presidente - eles o mataram.

      Ninguém disse nada. Aquilo era muito absurdo. Será que eles se vingariam por termos tentado enganá-los?

      - Senhor, senhor…  - disse Carla, trêmula.

      - O quê foi Carla? - o presidente continuava olhando para o monitor e para os restos de “Elvis” que ali apareciam.

      - A holografia… o relógio… voltou a contar.

      Não, eles não se vingariam, mas tudo voltava ao início. 02:11:14, 02:11:13, 02:11:12 …

      - E agora? Com Elvis morto, não temos chance…

      - Senhor?

      Todos olharam com espanto. Era o cozinheiro da casa branca.

      - Sim?

      - Tive uma pequena idéia.

      Uma pausa. Aquilo era altamente irregular. Mas o Presidente era uma homem cortês.

      - Pois então diga, meu rapaz. Estamos precisando de algumas idéias.

      - Talvez, não tenho certeza, eles estejam à procura do verdadeiro Elvis.

      O Presidente riu. Todos riram.

      - Isso é lógico meu rapaz. Se essa era a idéia…

      - Senhor, tentamos impingir um sósia, mas eles não morderam a isca. Aparentemente eles têm meios para reconhecer Elvis. Então, basta mostrar o lugar onde ele está…

      Todos olharam para o rapazinho. Alguns davam sorrisos abafados, outros aguardavam a reação do Presidente para depois segui-lo.

      - Meu rapaz, pode ser, pode ser. Excelente idéia - avançou à frente e deu um abraço no rapaz - se sairmos dessa o senhor será nosso novo Secretário de Defesa. Carla, sem ressentimentos, certo?

      - Mas, senhor, eu não tenho qualificação para…

      - Como não têm? Quem tem idéias como essa deve ser estimulado a ter mais.

      O plano agora era colocar diversos refletores ao redor do túmulo de Elvis. Tudo o que estava à volta foi arrancado, árvores, mausoléus, pedras, flores, tudo. Quando estava pronto, as luzes foram novamente desligadas por todo o globo e os holofotes ligados ao máximo. No centro do círculo, somente o túmulo de Elvis.

      Uma nave-mãe, como os analistas a denominaram, voou para lá e estacionou. Da mesma forma que da vez anterior, o relógio parou e uma nave menor saiu para ficar estacionada 10 metros acima do solo, 8 metros acima do túmulo de Elvis.

      Dessa vez um raio vermelho saiu de dentro da pequena nave e foi dirigido até o túmulo de pedra. As pessoas não acreditavam ao ver que a pedra, o túmulo inteiro, pareceu dissolver-se como pó, espalhando uma pequena nuvem no local que logo se dissipou na brisa noturna. Um raio verde saiu de dentro e dessa vez a madeira do caixão desapareceu.

      “Um raio desmaterializador, incrível! Um para cada tipo de matéria…”

      O raio amarelo apareceu novamente. Novamente, o relógio sobre o Atlântico parou. E a holografia mostrava que o mesmo exame estava sendo processado com o verdadeiro Elvis, com os seus restos mortais.

      - Eles vão quebrar a cara - disse o Presidente - e, frustrados, vão quebrar o mundo.

      Como que para contradizer suas palavras, a pequena nave voltou para a nave-mãe, dessa vez em uma velocidade bem baixa, carregando o esqueleto de Elvis com um raio que mudara da cor laranja para branca. Aquilo desafiava as leis da física, como poderia um simples raio carregar matéria sólida?

      “Raios captores. Fantástico!” - muitos cientistas estavam impressionados.

      A pequena nave continuou subindo, subindo, e entrou na escotilha da parte inferior da nave-mãe, levando Elvis consigo.

      A nave-mãe piscou suavemente e partiu para o espaço, em alta velocidade. Ao mesmo tempo, ao redor do globo, todas as outras faziam o mesmo. A holografia sobre o Atlântico não existia mais, a Terra estava salva.

      - Alguém pode me explicar isso? - pediu o Presidente.

      Todos o olhavam com expressões mudas. Ninguém entendera aquilo. Alienígenas pararam a Terra ameaçando-a de destruição, com apenas um pedido: Queremos Elvis. E o levaram…

      - Bom, só sei de uma coisa, não vou tentar a reeleição. Depois dessa, adeus política…

      A nave já estava no espaço, acompanhada de suas irmãs, rumo à algum ponto próximo a Alpha Centauro. Dentro dela viam-se alguns seres, muito parecido com os humanos. Sem dúvida eles eram humanóides. O esqueleto de Elvis fora depositado dentro de uma cápsula cilíndrica e imediatamente preenchida com uma espécie de líquido gelatinoso. Diversos robôs aproximaram-se e começaram a trabalhar com aquele material, criando novas formas, nova carne, a partir do esqueleto recuperado no terceiro planeta à partir da estrela, chamada de “Sol”, pelos terráqueos.

      Em pouco tempo os robôs afastaram-se e um homem saiu lá de dentro. Ele não era mais exatamente um terráqueo, mas mantinha o mesmo rosto de quando estava na Terra. Caminhou até uma mesa próxima, pegou um frasco com algum líquido qualquer dentro e tomou. Olhou para seus companheiros e falou:

      - Puxa, como vocês demoraram, irmãos. Onde estavam?

      - Desculpe-nos. Nossa missão em Alderãa demorou mais do que o previsto. Como foi?

      - Fantástico. Consegui me tornar uma espécie de ser superior para eles. Próximo aquilo que eles chamam de “Deus”.

      - O “Criador”?

      - Exatamente.

      - E então? Pretende voltar?

      - Acho que sim. Sabe, eles falam muito na segunda volta de um tal chamado Cristo.

      Continuou tomando o líquido, enquanto suas feições ajustavam-se ao novo corpo. Ele já se sentia bem melhor.

      - Não é aquele irmão que tinha vindo anteriormente?

      O outro irmão olhou os registros e confirmou:

      - Sim, era ele mesmo. Ele se fez passar pelo filho do “Criador”. E realizou alguns milagres. Não explicáveis pelos atuais conhecimento da raça humana.

      - E onde ele está agora?

      - Em missão na Lua de Karonte.

      - Ah, então ele não vai se incomodar se eu tomar o lugar dele. Voltarei como Cristo…

      “Vai ser bem interessante” - pensou, dando um largo sorriso.

Os Quatro

segunda-feira, dezembro 10th, 2007

             Éramos três, sentados um ao lado do outro, nas três poltronas da minha sala da estar. Quando o primeiro tocara a campainha, fechei as cortinas, deixando a janela aberta para entrar um vento. O primeiro a chegar chamava-se Ricardo. Cinco minutos mais tarde, o outro, Henrique.

      Estávamos todos calados, com as mãos ao lado do corpo. Nenhum gesto, nenhuma expressão facial. Como é possível que o ser humano consiga ficar parado sem nenhuma expressão facial? Sempre há alguma expressão, seja ele de tédio, nervosismo, raiva, ansiedade ou calma absoluta. Mas os rostos dos dois ali sentados não traziam nada. Eram quadros-negros sem marcas de giz. Como se até as marcas do tempo houvessem sido apagadas.

      Nisso, tocou o meu celular. Atendi, enquanto olhava de soslaio para meus companheiros.

      - Sim?

      Era a Rebeca. Adotando o mesmo procedimento com os dois recém-chegados, não dei o endereço final pelo computador. Seria arriscado demais. Levantei, passei pelas cortinas e me dirigi à sacada. De lá, poderia ver Rebeca, mesmo à uma distância de vinte andares para baixo e cem metros de distância da entrada do prédio. Lá estava ela, com a sacola amarela na mão, como o combinado. Na esquina da Vasco Andrada com a Felipe Gutierrez.

      - Rebeca, olhe para a sua esquerda. Vê o prédio cinza, com o toldo azul na frente? Ótimo. Entre e vá até a portaria. Diga seu nome para o rapaz lá embaixo, ele já está avisado.

      Desliguei o celular. Em poucos minutos o rapaz da portaria me avisou sobre a chegada de Rebeca. Ela bateu na porta. Levantei-me e abri. Ela era uma moça bonita, muito jovem. Fiquei surpreso.

      - Rebeca?

      - Sim. Posso?

      Dei licença e ela entrou, indo sentar na poltrona maior. No canto oposto onde Ricardo estava. Deu um sorriso para cada um de nós, mas nada disse. Fechei a porta e tornei a sentar.

      - Então - ela disse - é aqui que você mora?

      - Sim. Há quinze anos.

      - Bonito - ela estendeu a mão para um porta-retratos sobre a cômoda da tv. Acariciou o vidro delicadamente com a ponta de sua unha pintada de preto. Ela me parecia uma mulher decidida.

      - Minhas filhas. Você sabe.

      - Sei sim. Todos sabemos.

      Calamos. Era um silêncio de cúmplices. De parceiros no pôquer. Cada um de nós ali era um participante do grande jogo da vida, onde algumas partidas são ganhas e, outras, perdidas. Geralmente as perdidas eram esquecidas, mas nós não conseguimos esquecer jamais o que perdemos. Cada um de nós ali tinha uma tragédia pessoal. Cada um de nós ali tentou reerguer o seu mundo a partir das cinzas, como uma fênix. Mas, sem sucesso. A vida tinha perdido o seu sabor. Éramos como crianças obrigadas a comer algo intragável, diariamente, em troca de sobremesas, ainda mais insípidas ainda.

      - Eu perdi meu filho e meu marido em um acidente de carro. Há três anos. Minha vida ruiu.

      Falar o quê numa hora dessas? Nada. Apenas o silêncio, que transmitia todo o nosso carinho e nossa compaixão. Como se nós estivéssemos ligados em uma máquina de bombear sangue, sentíamos todos a mesma coisa, a mesma emoção, o mesmo conforto surdo apenas por estarmos na presença um dos outros.

      Fabiano ligou e o procedimento foi o mesmo. Ele bateu na porta e eu abri, convidando-o a sentar e o telefone tocou. Devia ser o último convidado: Marcos.

      - Alô? - eu disse.

      Ninguém respondeu do outro lado. Passei novamente pelas cortinas e fui até a sacada para tentar vê-lo. Vi um rapaz alto, todo de preto, em pé na esquina. Com o celular na mão. Mas ele não falava nada. Só conseguia ouvir sua respiração.

      - Marcos?

      - Oi, aqui é Marcos.

      - Marcos, você vêm? Todos os demais já estão aqui. Você é o último.

      De longe era difícil, melhor dizendo, impossível visualizar o seu rosto. Mas, pelo tom de sua voz, eu soube que ele estava num dilema. Era a encruzilhada da vida dele. Parecia até que ele não havia pensado no assunto até aquele momento.

      - Desculpe. Adeus.

      Ele desligara o celular. Não adiantava tornar a ligar. A decisão era dele. Que não se arrependesse depois.

      Voltei para a sala. Rebeca estava fumando. Por sorte, eu tinha um cinzeiro que havia comprado de lembrança em uma viagem que fizera para a Argentina. Era um cinzeiro com um pulmão em relevo rebaixado na pedra. Muito engraçado. Ela apontou para o cinzeiro, já com algumas cinzas de seu cigarro e disse:

      - Engraçado, né?

      - Era o que eu estava pensando. Humor negro.

      - É. Mas faz a gente pensar na vida.

      Fui até o meu quarto e alterei o e-mail, antes apagando o nome do Marcos, pois agora ele não era mais parte do nosso grupo. Imprimi três cópias, uma para cada um.

      Abri a gaveta e tirei a caixinha. Cinco cápsulas. Vermelhas. Tirei a outra caixa também, com as verdes. Sentei novamente no sofá e coloquei as caixas na mesa do centro. Cinco copos com água já estavam ali também. Fui até a cozinha e despejei um dos copos na pia. Voltei, sentei e entreguei uma cópia do e-mail para cada um deles.

      - É mesmo necessário? - Henrique perguntou.

      - Sim. Não quero traumatizar os vizinhos. E precisamos manter a nossa dignidade. E é apenas o primeiro nome, para facilitar o contato com a família.

      Todos concordaram com a cabeça. Quanto mais rápido ou outros soubessem, melhor.

      - Vermelha. Verde. Letal. Farinha. Ao mesmo tempo, nós vamos tomar a cápsula escolhida. Quem desistir, quem tomar a verde, de farinha, que feche os olhos e relaxe as costas na poltrona. Acho que ninguém vai querer morrer enquanto olha para o lado e vê alguém que não vai. Esperem cinco minutos e depois saiam. Batam a porta. Pelo e-mail ninguém os identificará.

      Ninguém disse nada. E eu arrematei:

      - Para quem tomar a vermelha… bom… o efeito é rápido.

      Todos se olharam em silêncio. Não era preciso dizer mais nada. Olhei para o relógio.

      - São onze horas, vinte e três minutos e quatorze segundos. Do dia quatorze de dezembro de dois mil e quatro.

      Todos estendemos as mãos e pegamos as cápsulas. Em minha mão, havia uma cápsula vermelha e outra verde. Escolhi a verde, deixando escondida, dentro da minha mão em formato de concha e levei até a boca. Engoli e tomei um copo de água. Eu notei que Henrique e Rebeca haviam devolvido o copo na mesa junto com a cápsula verde. Eles haviam tomado a letal! Ricardo devolvera a vermelha. Mas só eu notei isso. Todos eles estavam encostados no sofá, com os olhos fechados. Rebeca tinha as mãos cruzadas em X, sobre o peito. Ricardo colocara as mãos nos ouvidos, como se não quisesse ouvir nada. Mas a sala estava em completo silêncio. Henrique estava com as mãos nos bolsos.

      Bolsos? Lembrei do botão. Eu me esquecera do botão. Estava assustado com o que eles haviam feito, Rebeca e Henrique, mas fazia parte do meu trabalho. Coloquei a mão no bolso esquerdo e apertei o botão.

      Passara um minuto, e Ricardo abrira os olhos. Sorrira ao encontrar os meus abertos e dissera:

      - Também não teve coragem?

      - Eu jamais faria isso.

      - Mas…

      Um som detrás da porta.

      - Abram. Aqui é a polícia!

      Caminhei até a porta e abri. Vários agentes estavam ali, todos de preto, esperando a ordem do Capitão para entrar.

      - E então? - perguntou.

      - Henrique e Rebeca tomaram o sonífero. Já estão dormindo. Ricardo não teve coragem. Mas precisa de tratamento psiquiátrico.

      - Quem não precisa? - ele sorriu - e o quarto?

      - Desistiu. Marcos. Você o encontrará neste endereço. Consegui rastreá-lo pelos emails.

      Dei a ele a folha de papel com os dados de todos. Seriam encaminhados para o Centro de Recuperação de Quase Suicidas.

      - Parabéns. Agora são… ?

      - Quinhentos e vinte e cinco. Em doze anos.

      - Nossa, é muita gente querendo se matar. Sabe que isso é estranho?

      - o quê? - perguntei.

      - A morte é um ato solitário. Mas essa gente prefere morrer aos grupos.

      - Talvez seja o medo da escuridão. Agora, se os senhores me derem licença.

      Saí e desci os vinte andares pela escada. Passei pelo porteiro, que não era porteiro, mas um agente da polícia, que sorriu para mim.

      - Quantos dessa vez?

      - Dois. E dois desistiram.

      - Desistiram, hein?

Dei de ombros e passei pela porta, até chegar na rua. Escolhi ir pela direita, até um café a algumas quadras. Olhei para o céu e vi que a lua estava linda, radiante. Cruzei o parque e vi vários casais de namorados que se abraçavam, apaixonados, beijando-se em todos os bancos disponíveis.

      Realmente, não era uma noite adequada para morrer…

O Pai de Todos

segunda-feira, dezembro 10th, 2007

RS

 

      O homem já lera o jornal todo umas três vezes, no mínimo. Virava as folhas cuidadosamente, para lá e para cá, sempre concentrado, jamais mostrando sinal de impaciência. O café era bem limpo, apesar de simples. Era um bairro tranqüilo e o homem via que muitos homens e algumas mulheres caminhavam em direção Norte, provavelmente para pegar o trem na estação Smithland, poucas quadras adiante.

      Fez um sinal para a garçonete, a qual prontamente levou o bule até sua mesa e encheu novamente a sua xícara com café novo. E bom, admitiu para si mesmo. Dobrou o jornal, e colocou dentro de sua maleta. Olhou para seu relógio de pulso, rolex, uma raridade naquele lugar e conferiu com o relógio da parede. Conferiam até nos segundos. Para ajudar a passar o tempo pegou um lápis no bolso da camisa e começou a resolver as palavras-cruzadas que havia separado antes de guardar o jornal.

      Não demorou muito e ele viu um homem cruzando a rua, na diagonal, em direção a estação. Era aquele mesmo. O homem havia atravessado a rua e agora estava na companhia de mais dois, talvez colegas de trabalho na gráfica do jornal (sim, o homem fizera suas pesquisas direitinho) ou apenas conhecidos da estação. Ele aguardou mais quinze minutos e pediu a conta. Por último foi ao toalete e deu uma boa olhada no espelho. Era a face certa. E ele usava o perfume certo, de acordo com suas pesquisas. Era algo que já havia feito muitas vezes, mas o sabor, aquela emoção, sempre deslizava por suas veias e entranhas como fogo líquido, que não queimava, mas dava uma sensação de euforia, êxtase.

      Saiu do bar e dirigiu-se para o seu destino daquela manhã. Sabia que seria algo de repercussão eterna, mas procurou pensar em outras coisas que aconteciam pelo mundo. Outubro de 1939. Um mês interessante, pensou. Bem movimentado. Há alguns dias atrás haviam chegado aos subúrbios de Varsóvia os primeiros tanques alemães. O Canadá havia declarado guerra à Alemanha. A morte de Freud. O afundamento do couraçado britânico Royal Oak pelos alemães. A ordem para que todos os judeus, nos territórios do Reich, usem a famosa estrela amarela. Heinrich Himmler emite o decreto Lebensborn. Tanta coisa acontecendo!

      E agora, o que fazer? Sabia que a primeira vez era sempre a mais difícil. Já havia planejado tudo até os últimos detalhes, mas algo poderia dar errado.

      “Maldito livre arbítrio” - pensou - “Bom, vamos lá”.

      Apertou a campainha e uma mulher jovem, relativamente bonita, viera abrir a porta. Ele deu uma desculpa qualquer sobre venda de enciclopédias e ela a deixou entrar. Isso eram oito e quinze da manhã. E ele saiu da casa apenas as dez e meia.

      O homem saiu contente da casa. Havia sido mais fácil do que esperava. Caminhou em direção a estação, procurando atalhos desconhecidos para que não repetisse o caminho por onde viera, pois ele tencionara jamais voltar aquelas ruas, aquele bairro específico. Seria por demais arriscado.

      A mulher não oferecera nenhuma resistência. O que o surpreendera. Até passou pela sua mente que ela já esperava por isso, o que era impossível. Ele conversara por alguns minutos, ela lhe servindo mais um café e ele usando de todo o seu charme e malícia. Ela não demorou a sucumbir e foram para o quarto, no andar superior da casa em estilo Vitoriano. E ela jamais se lembraria disso, ele sabia.

      Chegou a estação e comprou um bilhete. O trem passaria por ali as nove e vinte e cinco. Faltavam doze minutos. E ele acreditava na famosa pontualidade apregoada por todos os cantos daquela ilha. O trem chegou e ele embarcou. Sentou na janela e ficou olhando para a paisagem, tentando ver o mar, ali perto. Chegou até a sentir o cheiro das docas, mas sabia que isso era mais produto de sua imaginação do que outra coisa. Tirou um bloco, um lápis e riscou as duas

primeiras letra ali escritas: RS.

      Agora era hora de esquecer o que havia acontecido e planejar os próximos passos. Deveria ser muito parecido. E ele tinha outros afazeres para se preocupar nesse intervalo de tempo, já que deveria voltar somente dali a três meses. Ainda que não gostasse daquela cidade suja, fria, feia e fedorenta.

 

JWL

 

      Janeiro de 1940. A Finlândia recusa proposta russa de estabelecer bases militares em seu território e é invadida. Primeira apresentação do filme “E o Vento Levou”. Tropas canadenses chegam à Inglaterra. Um terremoto em Anatólia na Turquia. Criação de um gueto judeu em Lodz, Polônia, pelos alemães. Enfim, era só notícias sobre a guerra que se avizinhava.

      Mas o homem não poderia de desconcentrar. Uma coisa de cada vez. Mas ele já estava preparado. Com um modus-operandi similar, aguardou de pé, numa esquina, enquanto a chuva desabava sobre o guarda-chuva e sua capa preta. Era dia, mas a chuva fazia com que parecesse noite. Como precisava ter certeza de êxito, pois qualquer falha seria fatal para o seu projeto, esperou uma hora a mais do que a outra vez. A chuva atrasa as pessoas, então ele precisava ter certeza de que a mulher estaria sozinha em casa. Ontem seu plano não dera certo, pois a mulher saiu junto com o marido. Mas hoje, ele esperava, ela estaria vulnerável.

      Chegou em frente a casa e deu uma boa olhada. Uma bonita casa, em tons de marrom e amarelo, com um jardim do lado esquerdo e uma garagem do outro lado. Cerca de madeira e uma placa com o sobrenome L. Abriu o portão, passou e caminhou pelo caminho entre o jardim até a porta. Sabia que a mulher era mais inteligente do que a outra, não seria fácil ela deixá-lo entrar. Por sorte, ela tinha um irmão mais velho que sofria do coração. E ele não tencionava usar seu sex-appeal com essa, precisava de algo mais direto, um narcótico.

      - Pois não? - a mulher perguntou, através do vidro que separava a porta da rua da porta de entrada do vestíbulo.

      - Minha senhora, trago notícias importantes. É sobre seu irmão em…

      Dera certo. Ela perdeu toda e qualquer reserva e deixou-o entrar. Ele nem mostrou o telegrama. Mesmo se ela pedisse ele havia falsificado um para essa eventualidade. Ela ficou bastante nervosa mas ele tratou de acalmá-la. Em minutos ele a deixara sentada na cadeira da cozinha enquanto ele preparava um chá, enquanto ela dava as instruções sobre onde achar o bule, o açúcar, etc. Ele colocou o narcótico junto com o açúcar no chá. Ela tomou e ele ficou olhando para ela, já imaginando tudo o que havia imaginado fazer com ela desde que a escolhera. Ela era perfeita. Um corpo roliço, seios cheios e um rosto um pouco avermelhado. Sentiu um ímpeto de ereção, mas refreou seu instinto. Não precisava correr riscos.

      Ela logo ficou com muito sono e ele pediu desculpas, dando desculpas que precisava se retirar. Ela agradeceu o recado e o favor que ele lhe prestaria, mandando a resposta para o telegrafista. Ele saiu e fingiu que fechou a porta, indo sentar-se em um banco no meio do jardim, fora do alcance das janelas daquele lado da casa. Ele esperou três minutos e tornou a entrar. Não a encontrou. Subiu as escadas, abriu uma porta, mas não a encontrou. Caminhou até o final do corredor, passando a unha do dedo indicador pela parede como se fosse um cortador de pizza, em franca expectativa e chegou na última porta. Abriu-a. Como ele já esperava, ela estava deitada, ainda com roupa, sobre a cama.

      Tirou o relógio, os sapatos, a camisa, a calça, as meias, enquanto, delicadamente, tirava as roupas da senhora. Dera certo. Agora ela estava nua e ele também. Ele com o mais forte desejo carnal e ela adormecida.

      Quarenta minutos mais tarde ele havia vestido a mulher e colocado um copo com vinho em seu criado-mudo. Despejou um pouco de vinho em sua garganta que ela tomou sem recusar: era um dos efeitos daquele narcótico.

      Desceu as escadas, pegou uma maça no cesto da mesa da cozinha e saiu para o mundo. Enquanto caminhava de volta para a estação, tirou o lápis e seu bloco de notas do bolso. E riscou as letras JWL.

 

PJM

 

      Não era novidade que a Guerra era o assunto do dia. O homem voltou à cidade que apresentava medo e ansiedade em todas as suas esquinas, em todos os rostos de seus habitantes. Setembro de 1941. Após um ano e oito meses, o retorno para o seguimento do plano. Dessa vez fora muito fácil. O lugar era longe da estação, em um bairro bem afastado. Até as casas eram bem afastadas umas das outras, isto é, o risco de ser surpreendido em flagrante era mínimo. Já estava na cidade há uma semana, o que sempre fazia, e já havia visto a mulher na igreja. Ela era, de todas, a mais bonita. Ele flertou com ela na Igreja e ela, incrivelmente, não havia recusado ou ignorado seus flertes. Depois de três dias fez com que ela o notasse no supermercado e ele sentiu, não, ele soube, que ela estava pronta para ele. Se ela soubesse o que a esperava, mas ela não imaginava, nenhuma delas imaginava.

      Então, era o grande dia. Da mesma maneira, ele esperou, até ela ficar sozinha. Dessa vez seria direto, nada de narcóticos ou venda de enciclopédias francesas (as únicas vendidas naquela época). Ele caminhou até a casa amarela, bateu na porta e esperou. Quando ela apareceu, com um pano na cabeça, sorriu. Aquele sorriso que poderia cortar uma árvore ao meio ou varrer toda a areia do Saara. Ela o convidou para entrar, o que ele fez.

      Ela estava surpresa, mas não ofendida por ele estar ali, Pelo contrário. Diferentemente de todas, ela tomou a iniciativa. Fechou a porta da casa à chave, tirou o lenço da cabeça, sacudindo os longos cabelos fazendo com que o cheiro deles, misturado ao perfume o deixasse ainda mais excitado (sempre ficava, nessas ocasiões) e pegou-o pela mão, levando-o para o quarto.

      Nenhuma conversa, nenhuma frase. Quando ele abriu a boca para falar ela levou o dedo aos lábios fazendo sinal de silêncio. Será que tinha alguém na casa? Só se fosse algum parente doente, pois ele observara a casa durante dois dias, e sabia quantos moravam ali, quais os horários de chegada e saída.

      Já na cama, em pleno ato, ele a viu colocar a mão na própria boca para não emitir nenhum som. Ou aquilo era uma fantasia ou realmente tinha mais alguém na casa. Ele também não emitiu som.

      Na despedida, um beijo. Bom, não ocorrera exatamente como o planejado, mas ele estava satisfeito. Decerto era algo no sangue daquela mulher que a levara a se comportar dessa maneira. Um certo carisma, um entusiasmo, uma energia que tocava o que estivesse ao redor. Isso era bom para os planos do homem.

      Ele saiu da casa e não olhou para trás. Pensava que poderia ter tomado maiores precauções. Mas sacudiu os ombros, afinal, o objetivo de sua visita fôra atingido.           

      Mais uma riscada no bloco. Nas letras PJM.

 

GH

 

      Maio de 1942. A última vez naquela cidade. Talvez ele voltasse algum dia ali, mas pretendia antes visitar lugares quentes, secos, longe daquela neblina e do cheiro que empestava aquela cidade portuária.

      Com os três sucessos anteriores, ele sentia-se mais confiante do que nunca. E dessa vez não perdeu tempo. Sabia as rotinas da mulher e conhecia seus problemas de saúde. Deu um jeito de substituir o médico na pequena clínica médica do centro, ao lado da tabacaria, e a esperou. Comprou uma roupa branca e, para dar mais credibilidade, um estetoscópio. Ele sabia que não conseguiria entrar na casa dela, já que ela tinha uma irmã mais nova, excepcional, que não a desgrudava. Exceto, aham, exceto em situações como essa, quando ela ia ao médico, por exemplo.

      Tinha a desculpa preparada. Fizera o médico verdadeiro receber uma carta com o convite do congresso na capital do país, e ele saíra em viagem há um dia. Como ele demoraria um dia para ir e outro para voltar, tinha todo o tempo necessário.

      A secretária do médico havia ganhado uma folga enquanto este não retornasse. Tudo conforme os planos. Ela estaria sozinha com ele, no consultório do médico. Fácil. Tinha uma carta onde o “médico” atestava a competência de seu colega e que ele estava apto para substituí-lo nessa ocasião. Ligara para uma companhia de teatro e contratara uma moça de seus vinte anos dando a desculpa que desejava pregar uma peça em velha amiga. E essa desculpa havia sido aceita completamente sem reservas de qualquer espécie. Ela seria a competente secretária.

      O resto, transcorreu como o desejado. A mulher fora ao consultório, e ele mostrara a carta do médico, explicando que estava ali como substituto para atender as pacientes especiais como ela, o que a deixou embevecida. Ora bolas, era um exame ginecológico e as mulheres não trocam assim de médico de uma hora para outra, mas ela acreditara na carta, simpatizara com o novo doutor, tão charmoso e bonito, que era médico por acidente pois deveria ser ator de cinema, ela pensou. Ela sentou-se na cadeira e ele realizou o exame, sem problemas.

      Dessa vez ele sabia que não poderia ser como das outras vezes. E com muita imaginação ele resolveu o problema. Agora ela estava ali, de pernas abertas para ele, enquanto ele pegava o instrumento metálico, e inseria na vagina da mulher delicadamente, para a raspagem e coleta do material para o papa-nicolau. O que ela não imaginava (e nem via, já que ele havia colocado um pano sobre seus joelhos para que ela não sentisse frio, é que ele havia ejaculado há poucos minutos sobre o instrumento. Ele então, sem que ela soubesse, a estava inseminando…

      As últimas letras do bloco estavam riscadas. GH.

 

1950. França. Numa praia qualquer.

 

      O homem estava completamente relaxado. Resolvera parar de trabalhar por alguns anos e deixara assistentes cuidando de seus projetos. Resolvera folgar, passando longas temporadas em diversos lugares do planeta. Enquanto olhava para o mar, diversas moças, de todas as cores e formatos, corriam de um lado para o outro da praia, jogando bolas umas para as outras ou apenas correndo em brincadeiras de pega.

      Agora, era com eles. Ele era o príncipe e seus filhos, seus quatro filhos, seriam seus herdeiros. Ora, o “Outro” também não tivera o seu filho? Agora era a vez dele ter essa oportunidade.

 

      “Livre-arbítrio. Livre-arbítrio. Livre-arbítrio. Livre-arbítrio.”

 

      Essas palavras corriam como mel pela mente do homem. No futuro, vamos ver quem foi o mais bem-sucedido. Deixem que os homens escolham seus mestres.

      O homem relaxava, tomando um suco de manga feito na hora, por uma de suas belas amigas, enquanto voltava a pensar em seus filhos. Quatro filhos homens. E, segundo seus planos, eles seriam os senhores do mundo, apenas isso, nada mais.

      - Ringo, John, Paul e George não são bonitos nomes, meu amor? - ele perguntou para a moça ao seu lado, sem esperar resposta, enquanto colocava a mão por baixo de seu maiô…

Dedicatória para um grande amor

segunda-feira, dezembro 10th, 2007

Agora era tarde para voltar. A mulher estava me esperando e eu já havia adiantado um pouco do assunto pelo telefone…

Nem sei porque a procurei. Curiosidade? Bom, acho melhor explicar como aconteceu…

Há dois meses atrás fui ao sebo, que ficava quase na esquina da Farrapos com a São Pedro, em Porto Alegre, e comprei um livro. Não era um livro qualquer, era “O Livro”. Era, para mim, um livro tão importante, que provocou tanto impacto em minha maneira de ver o mundo e o Universo que eu queria ler apenas quando julgasse estar pronto…

O filme era o meu preferido, o diretor do filme também, assim como o escritor do livro. Mas o livro propriamente eu jamais havia lido. Sabe aquela lista que a gente sempre faz dos “livros para ler este ano”? Eu jamais colocava este livro na lista. Sei lá, pode parecer idiota, mas é como uma sobremesa onde primeiro comemos a “pior” parte, deixando a melhor para o final…

2001, Uma Odisséia no Espaço, de Arthur Charles Clarke (dizem que ele não gosta do Charles. Desculpe…). Uma barbada. 10 reais. Se você que estiver lendo essas palavras, mora no futuro, saiba que esses 10 reais equivalem a cinco garrafas de coca-cola, ou a um ingresso de um bom cinema.

Bom, chega de divagações. Comprei o livro. Ponto. Isso era uma quarta-feira e no sábado, aproveitando a folga, refestelei-me no sofá pronto para ler o livro.

Geralmente quando escolho um livro em um sebo, não olho as páginas finais e nem as iniciais. Pra não estragar a surpresa, acho. Abri a primeira página, a da contracapa, e lá estava, uma dedicatória escrita em letras bonitas, angulosas. Se fosse possível imaginar alguém através da letra, eu diria que aquela moça (era na época, descobri mais tarde…) era alta, elegante, gostava de vestir-se bem e ouvia bossa nova. Tinha preferência por tudo o que fosse sóbrio e altivo. Em suma, uma pessoa “clássica”, como a música.

Essas coisas me passaram pela mente, mas não tenho nenhum processo lógico para explicar como cheguei a essas conclusões. Não me peçam para destrinchar os intrincados mecanismos da mente humana, tão diferentes de pessoa para pessoa.

Eram oito linhas. Oito simples linhas. Inclinadas diagonalmente. Não resisti à curiosidade e peguei um esquadro para medir a inclinação: quarenta e cinco graus. Exatos.

Você deve estar curioso para saber o que estava escrito. Aqui vai:

“Que você

encontre a

felicidade

e que ao abrir este

livro lembre-se desta

que tanto o ama

Lílian Marlene Fuchs”

Mais abaixo, no rodapé da página, bem à esquerda, a data:

“22 - 2 - 1969″

E, ao lado, a assinatura, simples, enigmática, encantadora:

“Lili”

Por favor, aquelas oito linhas acima, imagine-as inclinadas, no alto da página, à esquerda.

Comecei a ler o livro mas aquilo sempre me voltava à mente: o que teria acontecido àquele grande amor da Lílian? Afinal, o livro fora vendido ou emprestado para alguém que, ao invés de devolvê-lo, vendeu-o para um sebo. É triste, é engraçado, mas não impossível de acontecer…

Teria o “amor da Lílian”, morrido? Teria Lílian também morrido?

E me veio a vontade de conhecer a Lílian. Lembra daquele filme com o Christopper Reeve, o super-homem, “Em Algum Lugar do Passado”? Creio que era ele e a atriz Jane Seymour, não tenho certeza… Ele apaixonou-se por uma foto dela que havia sido tirada há muitos anos atrás…

Não me apaixonei pela Lílian, esclareço. Mas a curiosidade era muito forte. Eu sentia que, não importando os caminhos que aquele livro percorrera, ele precisava voltar às mãos dela. Ou aos seus filhos e netos se já fosse falecida…

Bom, agora acho que as coisas estão mais claras, certo? Foi assim. Fiquei com medo de ser mal recebido, talvez aquela moça que escrevera palavras tão belas, tão simples, houvesse enlouquecido. Ou se tornado alcoólatra. Sei lá. Mas insisti. Investiguei. E descobri que Lílian estava viva. E, sorte minha, morava em Porto Alegre mesmo…