Archive for the ‘Contos’ Category
sexta-feira, abril 11th, 2008
Os americanos nunca enviaram um cão ao espaço porque eles são o melhor amigo do homem. Os russos o fizeram pelo mesmo motivo.”

(Laika a bordo do Sputnik 2 em imagem enviada pelo sistema de TV do satélite)

(Esta foto foi tirada por um astrônomo amador. Ela é exepcional por nada dizer. Apenas exibe de forma singela os últimos quinze segundos de existência do Sputinik 2 e sua passageira, morta há meses - Fonte: Spacenews.geoman.net - França)
NOS DIAS SEGUINTES AO LANÇAMENTO foi notado um aumento significativo na temperatura do compartimento biológico. O sistema de controle térmico apresentava sinais de ineficiência e por causa disso Laika sofreu condições extremamente desconfortáveis.
As altas temperaturas no interior da cápsula foram uma constante durante o vôo, e Laika acabou morrendo no dia 7 de novembro de 1957.
Análises posteriores confirmaram que Laika morrera devido ao excessivo aquecimento do seu contentor.
A ogiva protetora do satélite não se separou como deveria, por isso o mau funcionamento do sistema de controle térmico.
Numa entrevista recente, Dimitri Malashenkov, um dos cientistas envolvidos no projeto Sputnik 2, desabafou que era praticamente impossível construir um sistema confiável no prazo estabelecido.
A descoberta de Laika
UM ASPECTO IMPRESSIONANTE do vôo do Sputnik 2 foi a detecção de cinturões de radiação em torno do nosso planeta, mais tarde batizados como “Cinturões de Van Allen”.
A constatação veio apenas após 1 de fevereiro de 1958, através do satélite americano Explorer 1, o que deu aos Estados Unidos uma das primeiras grandes descobertas da história da Astronáutica.

(Selos comemorativos da Polônia, 1964 (à direita), Romênia, 1957 (acima), Albania e Mongólia (1982). Laika ainda recebe homenagens pelo mundo todo)
Na verdade os cientistas soviéticos não souberam interpretar a informação que tinham obtido em primeira mão!
Sem regresso
O SATÉLITE 2 PERMANECEU EM ÓRBITA DA TERRA por mais alguns meses, reentrando na atmosfera terrestre no dia 14 de abril de 1958, após 2.570 voltas em torno da Terra. Na volta, a cápsula ardeu até transformar em cinzas o já sofrido corpinho de Laika.
Uma leva de protestos por parte de associações de proteção aos animais alegou que o vôo da cadelinha era desnecessário, cruel e desumano. O vôo do Sputnik 2 com sua inocente passageira foi um exemplo de como a corrida espacial esteve movida pela política da Guerra Fria.
Em julho de 1998 Oleg Gazenko confessou estar profundamente arrependido de ter enviado Laika numa missão sem regresso: “Houve uma hipótese de lançar Laika – e lançamos! Faltou-nos uma análise consciente do que estávamos fazendo”, desabafou.
Curiosidades
• O Sputnik 2, com a cadelinha Laika, foi lançado na madrugada de 3/nov/1957
(23h30min de 2 de novembro no Brasil) no Cosmódromo de Baikonur, Rússia.
• O satélite reentrou na atmosfera sobre as Ilhas Antilhas, em 14 de abril do
ano seguinte, após 163 dias em órbita.
• Laika é uma palavra russa para “latido”. O animal era uma fêmea vira-lata, sem
dono, e encontrada nas ruas de Moscou pesando aproximadamente 6 kg.
• Também a chamavam Kurdrajevskaya, entre outros nomes. O mais comumente
aceito é que seu nome original era Kudryavka (Ondinha), sendo o animal rebatizado
como ‘Laika’, em honra a sua raça.
• Oficiais russos afirmaram na época que Laika teria morrido após cerca de 10 dias
em órbita, através de uma injeção letal.
• Mas em 2002, Dimitri Malashenkov revelou no The World Space Congress (realizado
em Houston, Texas), que Laika morreu numa situação de calor e pânico, entre cinco
e sete horas após o lançamento, quando seus sinais vitais foram interrompidos.
• Os sinais vitais da cadelinha foram transmitidos na freqüência de 40,002 MHz
e alguns radioamadores conseguiram captá-lo.
• Embora Laika não tenha sobrevivido, sua viagem trouxe os primeiros dados sobre
como um ser vivo reage no ambiente de microgravidade em órbita da Terra, e
abriu caminho para os vôos espaciais tripulados por humanos.
• A história de Laika emociona até hoje. Centenas de milhares de cães por todo o
mundo recebem o nome da cadelinha – que se tornou tão popular que muitas
pessoas nem mesmo sabem porque estão chamando seus cães assim.
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segunda-feira, dezembro 31st, 2007
- Oi.
- Oi.
- Como foi o teu dia?
- Bem, bem.
Ela pega o controle da televisão e troca de canal. Nenhum beijo foi trocado. Até o olhar cúmplice desapareceu.
- Sabe, andei pensando…
- No quê?
- Em nós, nossa vida. Na rotina.
- Sei.
- Sabe? E o que acha que devemos fazer?
- Cada um pro seu lado?
- Pode ser.
Ela acha um programa de variedades. Ele pega a cuia, vazia no chão ao lado da cadeira dela, enche e começa a tomar. No início sempre oferecia o primeiro mate para ela, mas isso havia ficado no passado.
- Um amigo mora perto da redenção. Andei conversando com ele. Talvez fique algum tempo ali.
- Até?
- Até encontrar um lugar definitivo.
- Não estou te mandando embora. Fique aqui o tempo necessário até encontrar um lugar legal. Vai acabar gastando com uma mudança provisória para quê? Coloca o colchão no escritório e dorme lá. Tem bastante espaço.
- É, pode ser.
O programa de variedades acabou e passavam os créditos na tela. Anúncios de carro, detergente, banco e partida de futebol.
- Olha, pelo menos algo de bom nós temos.
- O quê?
- Isso, por exemplo. A gente não se ignora. Um fala alguma coisa e o outro responde, presta atenção. E não faltamos com o respeito um para o outro.
- Eu gosto de ti.
- Eu sei.
- Não é apenas por ter acabado o amor que vamos deixar de ser amigos. Lembra como tudo começou?
- Lembro.
Os dois riram juntos. Um riso silencioso, aberto, franco, nada daquela coisa de puxar o canto da boca para o lado, sinal típico de desprezo.
- Pena que não deu certo.
- Pois é.
O outro programa não parecia interessante e ela trocou de canal. Ele terminou de tomar o mate e serviu para ela, que aceitou.
- Foi bom.
- Foi?
- Tudo. As viagens, os livros que lemos, as músicas que ouvimos. Aprendi muito contigo.
- Eu também.
- Quer ficar com a Scientific American?
- A coleção? Toda?
- Sim.
- Quero.
- Mas daí vou ficar com os DVD´s do C.S.I., pode ser?
- Pode. Mas me faz uma cópia.
- Faço.
- Jura?
- Juro.
- Não esquece, hein?
- Não, fica tranqüila.
- E a tv?
- Tu assiste bem mais do que eu. Pode ficar.
- Tem certeza?
- Tenho.
Ela tomou o mate e alcançou a cuia para ele. Ele serviu-se mais uma vez e começou a tomar.
- Bom, vou tomar um banho. Amanhã começo cedo.
- Tá bom.
Ele levantou e foi até a cozinha.
- Quer alguma coisa?
- Traz um bombom.
Ele trouxe o bombom. Já estava sem os sapatos, largados na área de serviço e trazia a toalha na mão.
- E as fotos?
- Estão todas no meu computador.
- Me faz um backup?
- Quer que eu separe?
- Não precisa. Eu imprimo e depois corto com a tesoura.
Os dois riram novamente. Ele sentiu um ímpeto em abraçá-la. Mas o lado racional prevaleceu.
- Boa noite - abaixou-se e deu um beijo no rosto dela, que não desviou. Ele notou que ela fechara os olhos, exatamente da maneira que fazia quando se beijavam com vontade no início do relacionamento.
- Boa noite.
Ela continuou olhando a televisão. Ligou o abajur do canto e ficou olhando para as sombras no teto, projetadas pelo bonsai ao lado do abajur. Ela sempre mudava a posição do bonsai para que as sombras ficassem diferentes. E sempre ficavam. Alguns minutos passaram e ela ouviu a porta do banheiro abrir, ele caminhar pelo corredor e depois arrastar o colchão para o escritório. Um clique e a porta se fechou.
Ficou olhando para a televisão mas sem registrar nada na mente. Valia a pena quebrar o gelo, separar a distância e tentar uma reaproximação? Pesou os prós e contras e viu que os os prós ganhavam de goleada. Mas havia o orgulho. Ele chegara com a sugestão de se mudar. E quando homem fazia isso era por uma simples razão: ele estava decidido.
Ouviu a luz do escritório sendo apagada e notou que ele havia esquecido o celular sobre a mesa. Ele acordava de manhã com o despertador do celular. Era um bom motivo para bater na porta e entrar? Uma boa razão para chegar perto dele e, quem sabe, alguma coisa acontecer?
Ela permaneceu imóvel, se debatendo internamente quando ouviu a luz sendo ligada, a porta sendo aberta e ele caminhando pelo corredor para pegar o celular encima da mesa.
- Senão não acordo amanhã - explicou - boa noite.
- Boa noite.
Ele entrou no escritório e tornou a desligar a luz. Ela sentiu o cheiro do sabonete no ar e reprimiu uma vontade que surgira de repente. Há semanas - ou eram meses? - que não se tocavam e ela relacionava esses pensamentos com alguma forma terrível de pecado. Deixou a vontade passar, pegou o controle e desligou a televisão. Agora estava sozinha na sala, ela e as sombras do bonsai no teto.
Enquanto ele dormia no escritório ela olhava para essas sombras, lembrando do passado, momentos felizes e alguns nem tão bons, mas que faziam parte da união deles. Suspirou, desligou o abajur, ficou alguns segundos esperando os olhos se acostumarem com a escuridão, levantou e foi para o quarto. Abriu a porta mas nem ligou a luz. Foi para o seu lado da cama, levantou o lençol e deitou. Virou para o lado e sentiu o cheiro dele na cama. O travesseiro ainda estava ali, então ele devia estar dormindo apoiando a cabeça nas almofadas do sofá do escritório. Pensou em pegar o travesseiro e bater na porta dele mas desistiu.
Sabia que não precisava arrumar desculpas para bater na porta do escritório e entrar. Mas ela não conseguia arrumar coragem suficiente para fazer isso.
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sábado, dezembro 29th, 2007
- Mas esse negócio é garantido mesmo?
- Pô, tá duvidando de mim, cara? Claro que é! Senão eu não estaria te falando isso.
- Sei não, esse negócio de “ganhe dinheiro fácil” sempre me pareceu coisa de golpista.
- André, pensa um pouco. O Banco Central não faz dinheiro?
- Carlos, que argumento, o BC tem autorização pra isso.
- Autorização de quem? Eu não assinei nada.
- Cara, nós vivemos numa sociedade com regras. Quando nascemos, várias, senão todas elas, já estão estabelecidas. É o “Contrato Social” de Rousseau.
- Não sei. Só sei que essa máquina faz dinheiro igual ao de verdade. Portanto, é dinheiro de verdade.
- Tá. Mas me diz, onde vai conseguir o papel?
- Papel?
- Sim, papel-moeda não é igual jornal. É especial, banhado em substâncias secretas, preparado por alquimistas-magos e…
- Tu tá tirando sarro da minha cara!
- Mano, tu tá levando isso a sério mesmo? Isso dá cadeia!
- Só sei que é uma oportunidade única e não vou desperdiçar.
- Ok. Mas, antes me diz onde conseguiu essa máquina. E isso funciona mesmo?
- Achei. E funciona sim.
- Como assim “achei”? Máquinas de dinheiro não são jogadas por aí igual papel de chiclete.
- Pois é. Mas essa sim. Encontrei no porão da casa do meu tio.
- Qual tio? O Adolfo?
- Sim.
- Que morreu há cinco anos?
- Esse.
- Mas, ele não era viúvo?
- Sim. A casa ficou com meu tio, mas agora ele se mudou. E estou cuidando dela por uns tempos. É até bom para sair um pouco de casa.
- Mas, o que ele fazia mesmo?
- Escrevia em jornal. Depois da morte da tia ele andou se envolvendo com ocultismo, essas coisas. Comunicação com os mortos, sei lá mais o quê.
- Que doido.
Passei a mão sobre a máquina verde. Não era muito grande, parecia uma máquina de escrever para homens com mais de três metros de altura. Media uns 60 por 40 centímetros. E era grossa.
- Como funciona?
- Leia.
Tinha um pequeno buraco onde tinha uma placa rebitada:
“Notas pequenas”
- Notas pequenas?
- Sim, olha só.
Ele abriu a carteira e tirou uma nota de 1 real. Dobrou-a, como se fosse um canudinho e enfiou no pequeno buraco. Uma luz amarela acendeu no painel e ouvimos um som de engrenagens. Não demorou muito e ouvimos um ruído parecido com o de impressoras a laser modernas. E pela mesma abertura de entrada saiu outra nota enrolada. Ele pegou na mão, abriu-a e me mostrou.
- Não acredito.
Estendi a mão para tocar a nota. De 100 reais. Olhei contra a luz, senti o relevo, procurei as marcas d´água, as pequenas letras “B” e “C” escondidas… estava tudo ali.
- Qual o truque?
- Não é truque. Funciona mesmo. Venho testando há uns 3 dias já.
- Já testou essas notas com luz ultravioleta?
- Já.
Fiquei pensativo. O que pensar disso tudo?
- Acho quedeveria levar essa máquina para o Banco Central, Polícia Federal, Ministério Público, qualquer coisa.
- Eu não. É minha.
- Não é tua. Era do teu tio. Se ele morreu há tanto tempo e essa máquina tem a idade que aparenta, não deveria ser capaz de fazer notas de 100 reais. Alguém fez modificações nela, com certeza.
- Será?
- Cara, dinheiro não vem fácil. Ele só vale a pena quando é fruto do trabalho árduo. Sei, é bacana, um mistério total, mas alguma coisa tem. Deve ter um pequeno estoque de papel aí para as notas. Quando acabar, acabou.
- Você acha mesmo?
- Ei, isso dá cadeia, pensa nisso. O que seria da tua vida se fosse preso?
- Nem pensa nisso.
- O negócio é jogar fora.
- Fora?
- Claro. Melhor ainda seria destruí-la.
- Mas como?
- A martelo, sei lá. Do lado da firma tem uma oficina que também é desmanche. Conheço o dono, posso pedir para ele esmagar essa coisa.
- É, acho que você tem razão. Mas a nota parece tão boa…
- Parece. Mas os peritos da polícia vão sacar de cara que é falsa. Ela pode parecer boa para nossos olhos, mas com os equipamentos de última geração…
- Tá bom, chega. Tu leva essa coisa?
- Claro - peguei a máquina, meio pesada, e coloquei-a sob o braço.
Ia saindo para o carro e me virei:
- Mais tarde rola aquela cervejinha?
- Claro, aparece aí pelas 18.
- Tranqüilo.
- André?
- Oi?
- Muito obrigado. Eu já estava meio obcecado com essa máquina.
- Bah, esquece isso. Quer ficar com a nota?
- Não, vai que dou azar, esqueço, e sou preso por causa dela?
- É, seria difícil explicar. Até mais tarde.
- Até.
Saí rapidamente dali. Minha cabeça girava com vários planos. Comecei a calcular mentalmente quantas notas daquelas bastariam para comprar um carro, ou um apartamento, ou para uma noite na Tia Carmem ou na Gruta Azul…
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terça-feira, dezembro 25th, 2007
Ela disse que gostava de mim, mas não acreditei. Me abraçou, me beijou e disse que eu era o grande amor de sua vida e queria ter muitos filhos, mas nem pisquei. Sabia que ela já falara isso antes para todos os ex-namorados. Os relacionamentos não duravam, mas não sabia exatamente qual o motivo. Talvez eu estivesse procurando pêlo em ovo. Os relacionamentos hoje em dia não duram mais como os de antigamente. Ou, duram o mesmo, mas as pessoas já não são tão preocupadas com o que os vizinhos vão pensar ou a vida moderna cobra pensamentos imediatistas das pessoas. Prazer agora pois amanhã será tarde, sei lá.
Olhávamos um filme romântico, dos anos 70, mas não me deixei absorver muito por ele. Pensava na minha vida, no que havia atingido até ali e o que eu queria até o dia de minha morte. Pensei se constituir família era um dos meus objetivos principais ou apenas uma consequência natural da vida. Visualizei o tapete e mentalizei uma criança - não, duas - brincando com quebra-cabeças, carrinhos ou bonecas. E eu estava no chão junto delas. Imaginei a mãe, mas não consegui imaginar minha namorada nesse papel.
Namorada? Estávamos juntos há umas duas semanas. Sei que ainda é cedo para fantasiar casamento e filhos, talvez seja a idade chegando. Já adquiri um apartamento, que se não é o dos sonhos, ao menos é confortável e bem localizado. Um carro. Corro para manter a forma, terminei a faculdade - finalmente - após anos e anos trocando de curso. Um emprego estável. E agora, o que fazer? Assinar tevês a cabo, me associar para assistir aos jogos do Internacional, comprar um playstation?
Sempre que penso nessas coisas fico meio que chocado com meus pensamentos. Imagino que a vida não deveria ser só isso. Só aquisições, mais e mais, sempre mais, saldo bancário, televisão de 50 polegadas, uma casa na praia, sei lá. Penso que a vida é uma forma de arte e que devemos aprimorá-la aos poucos. No início ela é uma tela em branco. Aos poucos vamos adicionando sons e lágrimas. Riso. Prazer. Pequenas telas são adicionadas nas laterais e a tela bidimensional torna-se tridimensional. Aos poucos ela fica invisível e avistamos outra adiante. E mais outra, e mais outra. Telas, milhares delas, de variadas cores e formatos que vamos preenchendo, com sonhos, medos, dúvidas, esperanças e amores.
Amor. Será que é o amor o grande objetivo da vida? Não a paixão, que arrebata e é um instrumento eficaz para a perpetuação da espécie, mas o amor, puro e simples? A admiração por uma pessoa, a vontade louca em beijar o pescoço e abraçar, sentindo o calor gostoso, o cheiro, o suspiro, o beijo?
Não sei. Talvez ela não seja a mulher de minha vida, mas sei que, no momento, é ela que quero, na falta de palavra melhor, descobrir. Descobrir seus medos e espantá-los. Descobrir seus gostos e suprí-los. Descobrir seus desejos inconfessos e proporcionar a revelação deles para ela. Descobrir aquilo que ela ainda não sabe o que é, do que gosta, o que gostaria de fazer e surpreendê-la.
Sei que gostaria que fizessem o mesmo comigo. E é sempre assim. O que fazemos de bom para os outros é o que queremos para nós mesmos.
Sei que gosto de apertar sua mão, sentir o calor. Esperar os movimentos dos dedinhos dela na minha mão, esperar quando ela encosta a cabeça no meu ombro.
Acho que é isso. Não vou fantasiar muito, pois assim como as estações e as rotas dos pássaros, tudo muda. Vou viver o agora e aproveitar o agora. Planejar apenas a semana que vem, nada mais. Talvez as férias no verão, com seis meses de antecedência, mas é só. Deixar rolar.
Se o amor acabar, paciência. A dor vem mas também vai.
Mas se ele persistir, e as coisas acontecerem como eu fantasiei tantas vezes, relaxarei e darei um sorriso, franco, aberto e pensarei:
“O que mais um homem precisa para ser feliz?”
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sábado, dezembro 22nd, 2007
Era uma vez um cara que morreu. Ele sentiu uma dor estranha no peito. Depois, nada. Um zumbido no ouvido, um desequilíbrio passageiro, até seus olhos recuperarem o foco.
- 127.321.165.121 chegou - disse uma voz.
- Quem é você? - perguntou o homem. A pergunta dirigia-se para a mulher que havia falado.
- Contadora 548.644. O senhor está se sentindo bem?
- Claro que sim. Ou não? Não sei. Lembro de ter desmaiado ou coisa parecida.
- Não, - ela pegou um lápis e escreveu algo em sua prancheta - o senhor está enganado. O senhor não desmaiou, morreu.
- Morri?
- Sim.
- Mas, como?
- Coração. Agora, se o senhor não se importa gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
Era uma sala enorme. A contadora vestia branco. Não era exatamente a imagem que um dia ele fizera do céu, mas o céu poderia muito bem ser um lugar asséptico como aquele.
- Então, isso é o céu?
- Não. O senhor está sentindo alguma dor?
- Se não é o céu, é o inferno? - disse isso sem medo. Quando criança ele acreditava no céu e no inferno, mais no inferno, temor criado pelas professoras do colégio de freiras, que, aliás, eram todas freiras.
- Nem o céu, nem o inferno. O senhor sente dor?
- Dor? Não. Só uma leve tontura…
- Ah, é assim mesmo. Logo vai passar. Por favor, responda as perguntas que irei lhe fazer.
- Tem água?
- Água? Mas o senhor está morto - mesmo assim ela caminhou até um arquivo próximo, abriu a gaveta e tirou de lá dentro um copo grande com água. Alcançou para o homem e ele, surpreso, viu que estava gelada.
- Geladeira estranha… ei, qual o seu nome?
- Já disse. Meu nome é Contadora 548.644.
- Contadora, você é muito bonita.
Ela pegou a prancheta e encostou perto do peito - obrigada. Há muito que não ouço isso.
- Anos?
- Não, minutos - franziu a testa e continuou com as perguntas.
- Mas eu queria…
- O senhor terá algum tempo depois. Por favor, vamos continuar…
“O senhor acredita que de alguma forma a vida poderia ser diferente? Para melhor ou para pior?”
“A Bíblia ainda é uma fonte de referência confiável para as palavras de Deus ou acha que é necessária uma Segunda volta de Cristo?”
“A Igreja Católica deveria permanecer como a fiel depositária da Palavra?”
“Satanás deve continuar sendo mostrado erroneamente como símbolo máximo do mal na falta de escolha mais adequada?”
E assim ia. Perguntas e mais perguntas.
“As pessoas poderiam ter a chance de decidir seus destinos logo que alcançassem idade suficiente para discernir o certo do errado?”
“A telepatia deveria ser incrementada?”
“O apêndice deveria ser suprimido? As lombrigas são realmente úteis na Fauna terrestre?”
“Os contatos entre povos de diferentes planetas e galáxias deveria ser facilitado? A criação de algo capaz de viajar mais rápido do que a luz seria uma proposta aceitável?”
“Os cães, gatos e outros animais deveriam ter a inteligência equiparada à dos humanos?”
- Escuta, que mixórdia é essa?
- Uma pesquisa para o melhoramento da vida.
- Como assim?
- Responda, “O senhor acha que a reencarnação ou a vida eterna deveria realmente existir?”
- Rá! A vida eterna não existe? A vida eterna não foi… implantada, ainda? Afinal, o que é isso aqui?
- Prorrogação.
- Prorrogação?
- Sim, prorrogação.
- Mas, que diabos, o que significa exatamente isso?
- Todas as pessoas, logo que morrem, vem para cá.
- Para?
- Para a tomada de consciência e que possam responder a pesquisa de melhoramento.
- Isso é uma brincadeira, certo?
- Como?
- Estou vivo e tudo isso aqui foi planejado, algo como aquelas “pegadinhas” da televisão?
- Não tenho certeza se estou entendendo o que o sen…
- Quer dizer que isso aqui não é céu, nem inferno, nem porra de droga nenhuma?
- O que significa “porra de droga”?
- Apenas uma expressão que usamos quando furiosos. Afinal, o que é você?
- Um dia eu já vivi. Nasci, cresci, reproduzi, envelheci e morri. E vim parar aqui. Me ofereceram a vaga e aceitei. Não é oferecida a chance para todos e nem todos para o qual ela é oferecida a aceitam. Muitos apenas respondem a pergunta e depois vão embora.
- Embora para onde?
- Para o fim.
- Que fim?
- O fim, ora. O que há depois da vida? Apenas a prorrogação e depois o nada, o fim.
- Zero? Nem vida, nem morte? Nenhum pensamento?
- Nada.
- Onde está Deus?
- Deus não existe.
- Mas, se Ele não existe, quem criou esse lugar?
- Esse lugar não foi criado.
- Como não, se estamos nele?
- Esse lugar não existe. Essa é apenas uma representação em sua mente. Para diminuir o impacto de estar numa vida cheia, gloriosa, movimentada e depois passar para o mesmo estado em que todos nós estávamos antes do nascimento. Lugar nenhum.
- Que sem graça.
- Sim, sabemos, mas é assim.
- Mas eu não quero terminar, quero continuar nem que seja nessa vida autômata que vocês levam. Aqui ocorrem festas? Há esportes, música? Exposições de arte? Praia?
- Não, aqui não há nada. Apenas esse lugar, os contadores e os que estão passando pela prorrogação.
- Jamais se perguntou se há algo a mais?
- Para quê faria isso?
- Não acredito que todos os que passaram por aqui tenham se comportado como cordeirinhos. Com certeza alguns mais exaltados, ou aventureiros, devem ter tido a vontade em saber mais sobre esse lugar. Não dá apenas para acreditar nessa lorota toda apenas por acreditar.
- A maioria se conforma.
- Sério? Então há algo errado comigo. Jamais fui um contestador, sempre paguei os impostos direitinho, apesar de considerá-los abusivos e imorais. Não matei, não roubei, sempre procurei fazer o bem. Mas agora, vendo que depois da vida não há nada, apenas essa piada cósmica chamada prorrogação, snto o sangue ferver. Alguma coisa há de existir além dessas paredes.
- Que paredes?
- Essas paredes aí.
- São representações.
- Como assim?
- Imagine que estamos ao ar livre. Mas não há mais estrelas, ou sol, ou lua. Não há ceu. Nuvens, aviões, pássaros, mosquitos, nada. Não há grama verde nem rios. Não há árvores, nem macacos, nem formigas, nem nada.
O homem simplesmente levantou e saiu correndo em direção a parede mais próxima. Quanto mais ele corria, mais a parede aparecia distante. Era impossível, pensou, não poderia existir um prédio tão grande assim. Quando ele notou que alcançava pessoas, ou vultos, que apareciam a distância, mas a parede continuava a parecer tão distante em temros de quilômetros, ele desistiu. Olhou para trás e viu que não havia saído de perto da “Contadora”.
- Quer responder as perguntas agora?
Ele assentiu com a cabeça, um movimento mínimo, triste. Ele aceitou a derrota. Então tudo se resumia a isso? Uma bateria de perguntas de como foi a vida, como melhorá-la ou deixá-la mais emocionante, etc etc etc. E as bilhões de pessoas, enganadas quanto a existência da vida eterna? Ele fez a pergunta.
- Não tenho nada com isso, sou apenas uma Contadora.
Ele respondeu várias perguntas. Quando terminou, ela terminou de fazer as anotações em sua prancheta, tirou a folha da mesma e a dobrou como se fosse jogar no lixo. Fez uma bola e arremessou com força para o alto. Ele não disse nada, apenas ficou observando o papel que subia inexoravelmente para o alto, como que impelido por alguma força.
- Para onde ele vai?
- Quem?
- O papel?
- Não sei. Alguém vai lê-lo mas não sei quem.
Ele permaneceu abatido. Não sabia exatamente o que viria em seguida.
- E agora?
- Bom, agora é a escuridão total.
- Assim, sem mais nem menos?
- É.
- E se eu quiser continuar?
- Desculpe, mas não será possível.
- Não posso ficar aqui como um… “contador”?
- Não creio que seja possível.
- Por?
- Suas respostas não foram adequadas.
- Como assim?
- Adeus.
- O que você quer dizer com “não foram adequadas”? Eu quero ficar, nesse lugar, descobrir se há alguma maneira de prolongar a vida, essa vida estranha chamada de prorrogação, ou se há alguma forma de voltar a vida, de encontrar a imortalidade. Ainda há muitas coisas para serem feitas e eu não quero simplesmen… Deus !
Seu olhar ficou embotado. Os membros tornaram-se enrijecidos e ele deitou na maca. Apenas sua respiração, ou algo parecido, continua, como sinal de que seu corpo, ou o que restava dele, continuava ativo.
- Adeus - ela permaneceu perto dele por alguns instantes. Baixou seu rosto perto do dele e quase o beijou. Que pena, ele queria tanto, mas nem todos tinham a honra.
Ele finalmente terminou de morrer, para sempre. Já não existia mais. Somente na lembrança dos que permaneciam vivos. E, quando esses também se fossem, ninguém mais lembraria dele. Apenas um livro, que repousava sabe-se lá onde, continha o número correspondente à vida dele: “Cento e vinte e sete bilhões, trezentos e vinte e um milhões, cento e sessenta e cinco mil, cento e vinte e um”
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quarta-feira, dezembro 19th, 2007
- O que é que você quer dizer com “Agora é minha vez?”
- É minha vez, sim. Não reclama.
- Que tal lhe parece? – apontou para uma moça negra com cabelos tingidos de loiro.
- O quê?
- Câncer? Aids?
- Sim, boa, que racismo, hein?
- Não, nada a ver. Assassinato? Suicídio?
- Que tal a boa e antiqüíssima “morrer de velhice”?
- Muito sem graça.
- O que pode ter mais graça do que morrer de velho e ter a chance de lembrar os momentos bons assim como os nem tão bons assim?
- O quê podemos saber sobre isso?
- Nada. Apenas conjeturar.
- Certo. Overdose?
- E se fosse uma loira de verdade, ou uma ruiva autêntica, quais seriam os palpites?
- Câncer, cirrose. Talvez o mal de “haus-frau”.
- Desculpe, repita.
- Mal de “haus-frau”. Sabe o que é “haus-frau”, certo?
- Dona de casa?
- Não, “Do lar”. É mais politicamente correto. “Dona de Casa” parece “dona de casa de cabaré”.
- Mein gott, essa é boa.
- Você fala alemão?
- Alguma coisa a gente aprende aqui e ali. Oportunidades não faltam.
Continuaram os dois, sentados na mesa bem do canto daquele café na Cidade Baixa. Pessoas iam e vinham mas ninguém lhes dignava atenção. Trajados de preto, como rezava a lenda, mantinham os rostos inexpressivos. Falavam grandes bobagens, contavam piadas, histórias, faziam troça sobre grandes tragédias.
- isso é que é controle populacional.
- O quê?
- Veja só. A humanidade se desenvolveu exponencialmente, seja em população ou em termos de tecnologia. Mas o homem ainda é o mesmo de há milhares de anos. Ninguém foi feito para durar muito.
- “Deus escreve certo por linhas tortas”
- Que chavão barato. Ninguém sabe se ele existe.
- E nós? Não somos a prova “D´ele?”
- Que prova? Somos apenas dois seres que não compartilham do mesmo destino da humanidade. Pronto.
- Alguns acham que Ele está de férias. Aliás, merecidas.
- Puxa-saco. Falando isso pra bajulá-lo caso esteja ouvindo?
- Não. O que eu queria mesmo é que Ele mandasse alguém para me levar. Estou cansado. Sonho com isso. Peço por isso. Mas nunca acontece. Há tanto tempo que até já esqueci.
- Mas, é nosso trabalho.
- Ah, claro. Sair pelo mundo com a foice numa mão e um livro na outra, para saber onde encontrar a pessoa e a data certa para tal? E se for tudo uma grande ilusão? E se as pessoas morressem de outra maneira?
- Como assim?
- Ficamos sentados, aqui, nesse café. Conversando, filosofando. Sabemos que daqui há alguns minutos alguém vai morrer ali, naquela rua, na frente de toda essa multidão. Existe uma faixa de segurança trinta metros adiante. Mas a pessoa vai querer atravessar ali. Olhará para os lados, seu cérebro medirá a distância dos carros que vão e vem, calculará a velocidade necessária para atravessar a rua em segurança. Ela saberá que não precisa correr, basta caminhar. Começa a atravessar e não se preocupa mais com o resto, apenas em chegar do outro lado.
- E?
- Ela calculou errado. Ou o carro que vinha em determinada velocidade resolve acelerar mais rápido. E o motorista estará provavelmente ocupado ao celular, ou brigando, ou sei lá o quê. Ou ela nem calculou nada e atravessou a rua certa, convicta, de sua invulnerabilidade. Talvez ouvindo um walkman. MP3 Player. Sei lá como chamam isso agora. Nós somos apenas uma probabilidade. Um elo da corrente. Um elo inútil.
- Entendi.
- Ou algum carro faça aquela esquina ali, tão rapidamente e fazendo uma curva tão aberta que quando vir a pessoa atravessando a rua será tarde demais. Metal contra carne. Carne no espaço. Carne contra concreto do muro ou do poste. Luta desigual.
- Eu gosto do que faço.
- Gosta mesmo?
- Gosto.
- Mas, é uma pessoa. Sonhos. Desejos. Planos. Pais, filhos, amantes. Festas marcadas, beijos prometidos, trabalhos inacabados.
- É a vida. É a morte.
- Sei lá, cansei.
- É. Eu te entendo. Eu gosto do que faço, mas pensamentos assim já me ocorreram. Confesso.
Ficaram em silêncio por um instante. Um bebericando o café. O outro olhando rapidamente um livro.
- Você?
- Pode ser. Vou te mostrar que não somos tão inúteis assim.
Levantou-se e começou a atravessar a rua. Naquele exato momento uma moça ruiva, com brincos de madrepérola, vestido rosa com listras pretas, começava a atravessá-la também. Ele calculou bem e quando estavam no meio da rua ele esbarrou de leve em seu braço. Murmurou um “desculpe” junto com um sorriso cativante. Ela olhou para ele e a empatia se fez. O motorista estava ao volante falando ao celular e tentando tirar o invólucro de uma bala de hortelã para esconder o hálito das cervejas que tomara para que a esposa não enchesse muito a paciência em casa. Um baque surdo. O homem continuou atravessando mas ela não. Simplesmente voou como uma borboleta mas não pairou no ar. Parou no chão, do outro lado da rua, com um traumatismo craniano fatal. As pessoas se levantavam para ajudar mas ao chegar na moça sabiam que não havia esperança. O que ficara sentado foi até o que distraíra a atenção da moça.
- Bom trabalho. Ela não sentiu nada.
- Tem certeza? Eu duvido. Vê o meu braço? São as marcas dos sonhos delas. Mortos para sempre.
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terça-feira, dezembro 11th, 2007
Não conseguia dormir. Dei uma olhada no relógio de cabeceira e vi que já eram duas da manhã. Droga. O que será que estava acontecendo comigo, sempre essa dificuldade para dormir. Fechei os olhos e tentei contar carneirinhos. Sem resultado. Virei pro lado e senti a respiração da Tereza batendo no meu rosto. Ela tinha um sono tranqüilo, imperturbável. Que inveja. Seus olhos moviam-se de um lado para o outro. Era o chamado R.E.M.
Bom, fazer o quê? Ficar pensando não ajuda um sem-sono como eu. Virei de barriga para cima, cruzei as mãos sobre o peito e tentei não pensar em nada. Estava quase dormindo, quase totalmente envolvido pelo mundo mágico dos sonhos, quando ouvi uma voz:
“Ricardo”
- O quê?
“Não, Ricardo… assim não…”
Abri os olhos. Que seria isso? Um espírito? Não, era uma voz mesmo, eu não estava dormindo. Sentei na cama e de novo a voz:
- Ri…
Olhei para a Tereza. E ainda vi seus lábios pronunciarem o resto do nome:
- …cardo, não…
Meu Deus! Quem era Ricardo?
Levantei da cama e fui até a cozinha, clarear a mente fazendo um café bem forte. Quem era Ricardo? Enquanto preparava o café, pus-me a pensar em quem seria esse Ricardo. Vasculhei a memória e cheguei a conclusão de que conhecia sim, um Ricardo. Mas isso fora antes de conhecer a Tê. Pensei se algum dia falei dele ou se havíamos nos encontrado. Não, essa era a resposta.
Quem era Ricardo? Essa pergunta não saía da minha mente.
Algum colega de trabalho dela? Também não… Ei, espera aí, um vizinho aqui do lado é Ricardo mas, ah… ele é gay…
Servi o café numa xícara e o resto, que deu metade da primeira porção, em outra. Caminhei até o quarto e sentei na poltrona do canto, de frente para a cama. É verdade que o nosso relacionamento não era aquilo que se possa chamar de amor inesgotável. Aliás, todos os relacionamentos são assim. Nós gostávamos de estar um com o outro, estávamos bem acostumados e entrosados, e isso é importante para um casal. Mas, será que a Tê estava querendo experimentar coisas novas? Bom, não vou começar a especular e a espionar. Vou perguntar diretamente para ela. E ela que me responda…
Continuei tomando o café e ela acordou. Talvez fosse o cheiro que havia se espalhado pelo quarto.
- Oi, acordado?
- Oi. Sim. De novo.
- Que coisa. Tomou as pílulas?
- Sim e… Tereza, quem é Ricardo?
Droga, fiz a pergunta no momento errado. Daria tudo para poder ver a expressão ou o brilho de seu olhar. Mas o quarto estava numa penumbra só. Poderia basear minhas impressões apenas no seu tom de voz.
- Quem? Ricardo?
- É.
- Não sei. Por?
- Você acabou de falar o nome dele. Dormindo. Três vezes.
Ela riu. Estava escuro, mas deu para ver seus dentes bem claros. Benditas porcelanas para esconder as cáries.
- Ah, querido. Sonho é assim mesmo. O cérebro prega cada peça na gente.
Não me daria por satisfeito com essa. Ah não!
- Tereza!
Ela sentou na cama e ligou o abajur. Ficou olhando para mim por uns dois minutos e disse:
- Está certo. Quer saber? Ricardo é o cara para quem eu tenho dado nos últimos três meses. Enquanto você fazia essas suas viagens a serviço ele vinha aqui e me fodia, na nossa cama. Não reparou que os lençóis foram trocados? Não, homem não nota essas coisas. Tive que trocar, pois ele gozou tantas vezes no lençol, dentro de mim e sobre o meu corpo que não adiantava mais lavar. Aqui mesmo, nessa cama, seu puto sempre cansado e de pouca energia. Tudo o que nós fazíamos no início de nosso casamento eu refiz com o Ricardo, nesses últimos três meses. E também outras coisas que eu jamais faria com alguém como você!
Engoli em seco. Seu olhar de desafio me assustava. Alguma coisa arrebentara dentro da Tereza, sempre tão gentil e carinhosa.
- Mas, bastava você ter me dito…
- Ah, ah, ah! Seu Eugênio. Lamentável Eugênio. Acha mesmo que eu ainda ia tentar reativar nosso relacionamento após conhecer o Ricardo? Aquilo sim é que é homem… e… você está bem?
Não. Eu não estava. Alguma coisa quente estava em minha garganta. Uma sensação estranha. Um calor dentro do meu corpo. Minhas orelhas ferviam. E meus olhos enchiam-se de lágrimas. Ela falava alguma coisa mas eu não entendia o que era. Não ouvia nenhum som. Somente um cheiro. Imperceptível a princípio, e depois um cheiro de fogo, de calor. Eu me levantara e pegara algo na gaveta. Agora começava a perceber a cena, começava a sair daquele nevoeiro mental. Tinha uma arma na mão. E, Tereza, um buraco avermelhado e queimado no braço. Levantei de novo a arma e atirei, dessa vez não às cegas, mirando seu coração.
Enquanto eu atirava novamente ela abriu a boca e gritou:
- Ricardo ! Eu te amoooooooooooooo…
- Não! Não! Não!
Tereza acordou rapidamente e colocou a mão em meu ombro.
- O que foi querido. Tudo bem?
- Sim, sim.
- Nossa, você está suando. Está tremendo. Meu amor, o que foi?
- Um pesadelo. Só isso - eu me sentia todo aliviado, agradeci em meu íntimo a todos os santos que eu me lembrava de cabeça - um terrível pesadelo.
- Querido… Já volto.
Ela levantou-se e foi até a cozinha. Voltou alguns minutos depois com um chá quente e uma aspirina. Ou eu achava que era uma aspirina.
- Tome isso.
Tomei e me senti bem melhor.
- Está bem agora?
- Sim.
Ela esperou eu tomar tudo. Pegou a xícara, levou para a cozinha, voltou para o quarto, deitou na cama e me deu um beijo na testa.
- Você já está melhor. Nâo tem febre.
Ela apagou o abajur do seu lado e eu me senti o homem mais feliz da face da terra. Ela deitou-se, de lado, e eu a abracei por trás. Há quanto tempo não fazia isso? Seu cheiro ainda mexia comigo. Tirei minha cueca e ela sentiu minhas intenções…
- Querido, desculpa, preciso dormir. Amanhã começo as 7.
- Tudo bem.
Dei um beijo em sua nuca e me virei para cima. Sentia-me bem melhor agora. Com certeza, depois dessa, o sono viria fácil. Apesar do sobressalto.
Fechei os olhos e ainda perguntei:
- Tão cedo? Para quê?
- Nosso novo gerente quer conhecer os projetos em andamento e adiantar algumas modificações que ele já quer para segunda. Para impressionar.
- Novo gerente?
- Sim, o Ricardo.
Eu desconfiava que não ia mais fechar os olhos nessa noite…
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terça-feira, dezembro 11th, 2007
Não fazia 5 minutos que eu saíra do metrô rumo a minha casa quando um rapaz me abordou, estendendo a mão com um folheto e falando o seguinte:
- Boa noite, irmão. Fique com Deus!
Peguei o folheto, agradeci e segui em frente. Não joguei o papel na rua porquê é feio. Antes de guardar o folheto no bolso, curioso, dei uma olhada. Tinha uma paisagem bonita, um pôr-do-sol alaranjado com nuvens, aquele tipo de imagem gloriosa que sempre sugere a existência de uma força superior para ter criado algo tão bonito. Olhei para o título e li em voz alta…
- Quem é Deus?
Foi a última coisa que falei. Ouvi o barulho alto vindo por trás de mim até me atingir com tudo. Acho que era um carro, mas não tinha certeza. A dor picava em vários pontos mas eu não via mais nada. Achei estranho ao ver o chão subindo até a altura do meu rosto. Tarde percebi que na verdade eu é que caíra, batendo com a minha cara no chão de concreto. Depois disso tudo era escuro…
- Olá!
Fiquei um bom tempo olhando para aquele senhor alto, cabelos compridos e olhos azuis. Ele não precisava me dizer seu nome. Eu sabia com quem estava falando.
- Deus?
- Em carne e osso - foi falar isso e abrir a boca para rir alto. Notei os dentes perfeitos e o hálito de flores silvestres que chegava até minhas narinas.
Olhei em volta e vi a beleza por todo o canto daquele lugar. Seria o paraíso?
- Deus?
- Sim, sou eu. Vai perguntar mais quantas vezes?
- Isso é um sonho?
- Não.
- Como vim parar aqui?
- Você pediu, ora. Eu sempre atendo o pedido dos meus filhos queridos.
- Mas, eu nem acredito no senhor.
- Tudo bem, tudo bem. O que importa é o desejo no coração em fazer o bem. Ou em não fazer o mal, que dá no mesmo.
- Eu não pedi para vir aqui. Espere aí, eu estou morto?
- Parece.
- Eu não pedi para morrer! O senhor está louco!
Deus tirou um livro debaixo do braço e abriu na última página. Pude ver escrito na lombada: “Vida e Morte de Cláudio Cunha Cabral”. Ele corria as linhas com o dedo e parou. Então falou:
- Ouça: “Quem é Deus?”.
- E daí?
- Ora, você não queria saber quem era Deus? Aqui estou eu.
- Era força de expressão, Deus. Eu não falei a sério. O senhor sempre leva tudo ao pé da letra?
- Venha cá.
Fiquei parado.
- Venha. Quero lhe mostrar algo.
Ele pôs a mão em meu ombro e eu pude sentir a energia que emanava daquele ser. Então era verdade, ele existia mesmo? Ou seria apenas uma visão? Um sonho? Caminhamos por um longo corredor e entramos em uma sala onde tudo era grande demais. Na verdade eu não conseguia ver o teto.
- Aqui ficam armazenadas todas as conversas, orações, pedidos, preces, tudo o que as pessoas já falaram comigo. E ficará também tudo o que elas irão falar. Desde a primeira vez em que um homem falou comigo, há milhares de anos atrás, até o final dos tempos. Olhe o painel.
Um painel gigantesco que mais parecia um mapa-múndi, mostrava todos os continentes preenchidos com círculos vermelhos que piscavam. Seriam cidades?
- O que é isso?
- São todas as pessoas que estão falando comigo nesse momento! Então, veja só, acha que eu tenho tempo para ficar analisando se um pedido é sério ou apenas “força de linguagem”?
- Está certo, Deus. Eu errei. Realmente o senhor é muito ocupado. Mas não era essa a minha verdadeira intenção. O senhor viu. Eu apenas li o que estava escrito no papel.
- Falha de comunicação.
- Perfeito. E eu não quero morrer. Eu quero voltar.
- Ah, isso não é possível.
Era tão grande o bolo que havia se formado na garganta que eu, para engolir, precisei parcelar em três vezes.
- Como… não…é…possível?
- O senhor já está morto, ora.
- Mas, o senhor sabe que minha morte não estava prevista. Uma morte não pode ocorrer por um “entendimento dúbio” de um pedido. O senhor interpretou erradamente minha frase.
Deus levou a mão à boca e deu um longo assovio. Em segundos uma mulher de preto juntava-se a nos…
- Fala, Deus.
- Morte, Cláudio Cunha Cabral, ele deveria estar morto já?
- Deus, o senhor é que deve saber. O livro dele está embaixo do seu braço.
- Ah, é mesmo, esqueci.
Eu acharia engraçado se não soubesse que se tratava do meu futuro. Da minha vida (ou morte, sei lá). Realmente aquele era um lugar muito bonito, mágico, mas eu ainda tinha muito o que fazer na Terra. Dei uma olhada para Morte, uma loira linda, maravilhosa. Ela baixou a cabeça, virando-a para meu lado e dava um sorriso, como que gozando a péssima memória de Deus.
- Huum, na realidade o senhor ainda não deveria estar morto. Aqui diz que o senhor vai morrer apenas dia quatorze de…
- Deus, acho que o senhor Cláudio não precisa saber desses detalhes, certo?
- Oh, é mesmo. Claro, claro. Obrigado, Morte.
Ele virou-se para mim.
- Filho, estamos em um beco sem saída. Realmente a sua morte foi um engano, mas agora é tarde, o senhor já está sendo velado.
- Já? ? gritei ? mas eu estou aqui há não mais do que vinte minutos.
- A ampulheta do tempo do céu não é a mesma da Terra.
Pensei durante um momento.
- Essa não, Deus. Sempre ouvi dizer que o senhor era “onipresente, onipotente, onisciente”. Agora vai me dizer que não posso voltar? O senhor não têm poder para isso?
- Veja por si mesmo, Cláudio.
Ele estalou os dedos e eu vi o meu velório. Todos os parentes e amigos queridos estavam lá. Até mesmo aquelas pessoas que eu jamais suspeitei que gostassem de mim estavam lá, chorando. Até reconheci dois colegas do escritório, mas eles deviam estar chorando de alegria, pelo perdão das dívidas que não seriam mais pagas… O caixão estava uma beleza, coberto de calêndulas, que eu adoro. Puxa, como a gente emagrece rápido quando morre…
- A escolha é sua - disse Deus.
Olhei o corpo mais atentamente e entendi a razão dele ter falado isso. Pensei um pouco e tomei minha decisão.
- Quero voltar.
- Tudo bem. Mas a gente volta a se ver, certo? - piscou o olho esquerdo para mim - continue sendo uma boa pessoa. Até outra hora.
Tudo ficou escuro novamente. Fiquei um pouco tonto e senti a cabeça doer um pouco. Ouvi barulho de todos os lados e abri os olhos. Eu havia voltado!
Claro que foi difícil explicar para os parentes e amigos como alguém pode retornar dos mortos. Dois médicos, um vizinho e um primo, me ajudaram nessa tarefa, lançando hipóteses sobre uma certa doença que faz com que a gente pareça morto: catalepsia. O susto foi grande, mas todos ficaram felizes ao ver que eu havia voltado. Exceto, é claro, os dois colegas que me deviam dinheiro…
Fiquei feliz em ter voltado. E é claro que jamais contei a alguém o que verdadeiramente aconteceu. Se eu fizesse isso eles me colocariam em uma camisa-de-força e me jogariam no fundo de um poço, suponho.
A única coisa ruim é quando chega o dia quatorze de cada mês…
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terça-feira, dezembro 11th, 2007
- E Cláudia? 44832734?
- Apaga.
- Quem é?
- Ah, ela trabalhou alguns meses na firma.
- Ah sim, e o que o número dela faz em meu celular?
- Ela ligou num sábado. Para perguntar sobre o caso dos lobbies do
petróleo…
- Não me lembro.
- Ela procurou o nome na lista, mas lembre que ele está em teu nome. Morgana Karachov seria fácil de encontrar, mas você quis que ficasse no teu nome, lembra? E ela que se virasse com os 24 João Silva da lista. Mas ela deu sorte e achou…
Ela abafou um sorriso irônico.
- Ela procurou o nome na lista, mas lá não tem o número do celular, só o convencional oras…
- Querido. Março, férias, 2 anos atrás, Florianópolis, lembra? Nós mudamos a mensagem da secretária durante alguns dias…
“Favor ligar para 2413-1938″
- Ah, claro. Está explicado. Apago?
- Sim. Ela saiu da firma.
Continuei apagando os números de telefone armazenados indiscriminadamente, sem nenhuma seleção, em meu celular. É impressionante como a gente têm a mania de guardar um número para o qual jamais temos a intenção de ligar novamente. Parece que um dos grandes males da sociedade moderna é essa tendência em acumular muita informação, geralmente inútil. Será que a capacidade do cérebro humano em reter informações chegou ao fim?
Fui em frente a apaguei o telefone de um tal de Cunha. Depois o Damiani (ou seria uma mulher?), e seguiram-se Eduarda, Flávio, Formas Têxteis, Francês de Ouro (uma tabacaria que fechou… uma pena) e levei um susto quando cheguei naquele nome: Germânia.
Esse era o nome exótico da minha sogra, mãe de Morgana, minha esposa. A velha havia falecido há um ano e meio atrás. Eu só não lembrava o motivo de ter armazenado o número dela em meu celular. Que eu me lembre jamais liguei para a casa dela. Também, pouco gostava dela…
Gastei miolos e lembrei. Minha cunhada havia ligado para avisar que a velha não estava bem. Sim, fora num domingo de sol, pela manhã. Faziam muitos anos que Morgana não falava com sua mãe e mesmo a notícia da doença da velha não servira para amenizar rancores passados. Mas quando ela voltara a ligar, duas semanas mais tarde, para avisar do eminente desenlace, Morgana caiu em si e começou a arrumar tudo e providenciar uma folga no trabalho para viajar até São Paulo. Mas não dera tempo…
Ela decidiu não ir ao velório e nem no enterro. Tentei dissuadi-la mas ela foi inflexível. Disse que jamais se arrependera de alguma decisão e aquela não seria a primeira vez. Mas, todos os anos, nos aniversários de nascimento e morte da velha, eu sentia que sua alma caía triste.
Decidi não apagar sem avisa-la. Essa decisão caberia à ela…
- Amor?
- Sim?
- Apago?
- Quem?
- Estou na letra G…
- E?
Ela não entendera. Eu teria que falar o nome. Então respirei fundo e falei, secamente:
- Germânia.
Ela não pronunciou palavra. Não deixou escapar nenhum som da garganta. Mas eu sabia o sofrimento que minhas palavras haviam causado. Sentou-se no chão e colocou as mãos nos bolsos. Seus olhos, sempre bem abertos, cheios de vida, tornaram-se opacos, fecharam-se um pouco. Era visível a tristeza que se abatera sobre ela. Peguei o celular e caminhei até o sofá, me abaixei e o coloquei na sua frente, entre suas pernas.
- Para apagar aperte menu, selecione apagar e aperte send. Ok?
- Ok.
- Preciso ir até a padaria. Precisa de algo? Cigarros, pão?
- Cigarros…
- Está bem. Já volto.
Saí pela porta me sentindo um idiota. Estava certo que a lembrança de sua mãe ainda a fazia sofrer. Não poderia eu tê-la poupado disso?
Cheguei na padaria e vi que estava cheia. Eles tinham uma televisão grande e haviam comprado o pacote dos jogos da temporada do campeonato brasileiro de futebol. Era noite de gre-nal. Eu sempre fui colorado, mas com o passar dos anos apaguei essa paixão de minha vida. Ao ver o placar fiquei feliz: o Inter ganhava de três a zero do Grêmio. A galera estava animada. Peguei o pão, os cigarros e uma cuca deliciosa recheada com passas, especialidade da casa. Paguei e saí para a noite. Enquanto caminhava para casa um pensamento me ocorreu de repente: e se ela ligasse para o número? Bobagem, a companhia telefônica, sempre que alguém desconecta, deixa aquele número indisponível por no mínimo 5 anos. Se ela ligasse ouviria apenas alguma mensagem de erro qualquer…
Entrei no apartamento e a primeira coisa que vi me deixou assustado. Larguei as coisas sobre o sofá e corri à abraçar Morgana. Ela chorava copiosamente.
- O quê foi? - Perguntei.
- Minha mãe - ela disse, esfregando seus olhos verdes, agora vermelhos após tanto chorar.
- Eu sei, meu amor. Ninguém está preparado para perder um ente querido e quando…
- Você não entendeu… Eu falei com ela…
- O quê? - gritei.
- … e ela me pediu perdão pelos erros que cometeu. E disse que me amava, que sempre me amou…
Passei a mão pela sua testa. Febre. Ela viu meu olhar:
- Não estou louca, não estou imaginando. Eu falei com ela, eu falei, eu…
Ela não falava coisa com coisa. Peguei-a em meus braços e levei-a até a cama. Preparei um chá e ela, meio inconsciente, tomou. Dormiu quase imediatamente e eu fiquei sentado na beira da cama, pensando no poder da sugestão sobre a mente de uma pessoa. Ela sempre foi uma pessoa que se impressiona com as coisas. Até demais…
No dia seguinte ela estava com uma tremenda dor de cabeça. Perguntei, sutilmente, o que ela fizera antes de dormir, e ela simplesmente não lembrava. Apagou da memória.
Eu sabia que era tudo efeito da febre.
Como eu havia errado ao lhe entregar o telefone decidi não cometer o mesmo erro novamente: não toquei mais no assunto.
Três semanas mais tarde recebi a conta do telefone. Eu já havia esquecido do que ocorrera quando lá, pelo meio da conta, aparecia uma ligação feita no dia 12, iniciada as 10:03 e finalizada às 10:12. O número do telefone era o da falecida. Ao lado, onde aparece o nome do dono do telefone, via-se escrito:
“Proprietário não identificado”.
O medo tomou conta de mim. Simplesmente atirei a conta de telefone na lareira e fiquei olhando até que tudo estivesse consumido pelo fogo. Não fui atrás. Não investiguei.
Com essas coisas não se brincam…
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segunda-feira, dezembro 10th, 2007
Aconteceu uma coisa estranha hoje de manhã. Muito estranha. E o pior é que não tenho como provar. Consultei a lista de passageiros mas não obtive muita ajuda. Foi um encontro esquisito, aconteceu no mesmo local e com a mesma pessoa, mas… sei lá. Inexplicável. Ou, talvez, eu que não queira entender as consequências.
Quando ele começou a falar comigo, aquele rapaz mais jovem, não prestei muita atenção. Parecia ser mais um chato que gosta de conversar para passar o tempo. Mas, após algumas frases, | comecei a me lembrar daquilo. Aquilo já acontecera comigo, há tanto tempo atrás…
Não sei explicar direito, pois fiquei tão perturbado com aquilo e com as implicações que dali resultavam. Não acredito nesse tipo de coisa.
Quando mais penso no assunto. Mais chego a conclusão de que foi tudo um círculo, Sabe, um círculo acaba quando termina, ou termina quando acaba, sei lá. Aconteceu exatamente dessa maneira, há trinta anos:
O trem sacolejava um pouco mas não o suficiente para atrapalhar a minha leitura. Era um trem atômico, último tipo, que substituíra o trem-bala que tão bem servira o povo gaúcho ao ligar Porto Alegre a Torres, no litoral. Na minha frente, um casal de stareks bem amoroso. Ela agarrava-se no braço do marido que continuava a digitar algo em seu notebook. Ela usava um chapéu engraçado mas acho que era a última moda. Sei lá. Não me ligo muito nisso.
Ao meu lado, uma bela moça loira com um hálito gostoso de hortelã e canela. Vi a marca do chiclete quando ela colocou no triturador automático de lixo colocado na ponta inferior do braço suspenso da poltrona. Ela lia um jornal em Esperanto e parecia ser divertido, já que ela dava risadas sem som. Sua roupa era de um colorido vibrante, cores tropicais, que contrastava enormemente com a roupa do casal à nossa frente. Vez ou outra eu notei os olhares da senhora em frente. Ela olhava um pouco para mim depois para a moça ao meu lado. Karina. Estava escrito em uma etiqueta grudada na lateral da bolsa que ela trazia no colo.
A senhora cutucou umas duas vezes o braço do marido e cochichou em seu ouvido. Provavelmente ela achava que eu e Karine estávamos juntos. Mas éramos apenas dois estranhos sentados lado a lado em uma viagem de trem que não demorava mais do que vinte minutos. Contando o tempo de aceleração e desaceleração o tempo total estendia-se para trinta minutos. Era caro, mas valia a pena pegar impostos para manter os Reatores Nucleares em Panambi e Santa Maria. Proporcionavam maravilhas como esse trem atômico.
Eu tentava limpar a minha mente das preocupações. Mas não conseguia. A todo momento eu visualizava as duas cenas. Uma à esquerda, mostrando a Faculdade de Pesquisa Molecular de Canoas. E a outra, a direita, mostrando uma casa de praia, com dois andares e piscina, em Torres. Lá ficava o Centro de Pesquisas Atômicas Vormann.
Dois convites que haviam chegado ao mesmo tempo, na quarta-feira da penúltima semana do mês de Agosto. Ano 2071. Duas escolhas possíveis que, não importando qual fosse, mudaria a minha vida.
A vida vai nos ensinando aos poucos. Como escolher nossas amizades, boas roupas, bons restaurantes, bons filmes e bons livros. Mas não nos ensina a escolher caminhos de vida.
O casal em frente parecia ter escolhido bem. Pela alegria e vivacidade de ambos. E também notei o anel da Sociedade Stareks do Rio Grande Gaúcho no dedo médio da mão de ambos. Era um clube bem restrito, e a fila de inscrição tinha anos de espera. Muitos Stareks inscreviam seus netos logo após o nascimento, para poupar serviço, mesmo sabendo que somente eram aceitos sócios com mais de meio século de vida.
É. Eles escolheram bem. E eu? O que poderia fazer? Jogar aquele famoso jogo de adivinhação, o Babinovi, usando ossos do Urso Polar? Consultar uma quiromante? Basear meu destino no I-Ching? Ou ir pela sorte mesmo? Peguei um bloco e dividi a folha em duas colunas. Uma para cada um dos Centros. O salário era equivalente, as horas de serviço também. Canoas levava uma certa vantagem no item “Perspectivas de Crescimento” por causa da figura imponente e ágil do Professor Von Neumann, importado diretamente da Alemanha, sem escalas. Mas Torres levava vantagem no item “Lazer”. Praia. Mulheres bronzeadas. Isso sem falar no vigor sexual que o sol parece proporcionar. Ah, e têm ainda a beleza das gaúchas. Ficam com aquele bronzeado perfeito, tostadinho no ponto.
Recostei-me em meu banco e vi a moça pegando sua bagagem e seu casaco. Que pena, nem deu tempo de conversarmos um pouco. Um dia eu experimentaria trocar de trem atômico em movimento. Era uma manobra incrível de engenharia, dois trens viajando a não-sei-quantos-quilômetros-por-hora se cruzam lado-a-lado por alguns instantes. O passageiro entra em uma cabine que é transportada por um canal a vácuo. Tudo dura menos de um centésimo de segundo. A única reação do organismo humano é um sobressalto que desaparece no mesmo instante. Sei não, ouvi falar de alguns acidentes na China, cabines mal projetadas que levavam o passageiro para um ponto além do trem, caindo nas pedras. Tenho medo.
O lugar ao lado fica vazio. Deu pra ouvir o som do Litoral Gaúcho Sul-Londrina cruzando velozmente o nosso. Karine se foi. Volto a pensar mais detalhadamente nos dois convites recebidos. Se viajar no tempo fosse possível eu gostaria de dar uma breve olhada em meus futuros para escolher com mais facilidade.
Nisso, sem aviso, um homem de meia-idade senta-se ao meu lado. Senti o cheiro de pinho e vi que isso me lembrava alguma coisa. Lembrei. Era o perfume que meu pai usava. Exatamente igual.
O homem usava uma capa preta que ia até os pés. Uma maleta de couro marrom com uma insígnia. Era a insígnia do Centro de Pesquisas Atômicas Vormann! Quanta coincidência. Falar com ele ou não? Há pessoas que não gostam muito de conversar, especialmente em recintos onde se têm pouca privacidade.
Após dez minutos o casal em frente levantou-se. Acho que ela ia até ao banheiro, não tenho bem certeza, mas para o lado onde eles iam existiam somente poltronas e banheiros. E o maridão foi junto para prestar qualquer ajuda. Era a oportunidade que eu desejara para falar com ele.
- Senhor?
- Sim? - ele virou-se para mim. Não somente usava um perfume parecido com o do meu pai. Era parecido fisicamente com ele também.
- Desculpe incomodá-lo mas… - fiquei subitamente constrangido.
- No que posso ajudá-lo?
- Notei que sua maleta tem uma insígnia do Centro de Pesquisas…
E conversei com ele. Falei que recebera um convite para trabalhar lá e outro para trabalhar em Canoas. E sobre as minhas dúvidas.
Ele apenas olhou para mim e disse:
- Torres.
Que desagradável. Eu estava conversando com aquele numa boa. Se ele queria apenas interromper a conversa que dissesse. Não queria incomodá-lo.
- Desculpe, Senhor. Não tive a intenção de…
Ele percebeu meu olhar.
- Não, não está me incomodando. Escolha Torres.
- Mas… o Senhor têm alguma razão específica para me sugerir isso?
- Não me perguntou? Quem pergunta quer saber a resposta. A resposta é Torres. Para o bem ou para o mal. Será o melhor para você.
- Como o Senhor têm tanta certeza?
- Vai por mim - ele sorriu e deu uma pancadinha em meu joelho - Torres é a escolha ideal. Você não vai se arrepender.
Ele levantou-se e foi para o lado oposto do corredor, levando todas as suas coisas. Da posição onde estava não pude ver ele se afastando. Tambêm não poderia me levantar e me virar, pois seria estranho. Esperei uns cinco minutos mas ele não voltou. Tomei a decisão de ir atrás dele e perguntar mais sobre Torres. Enquanto estava caminhando em direção ao Restaurante e as Cabines ouvi um som longinquo. Háviamos cruzado com o Tramandaí-Santa Cruz!
Corri até a cabine mas ele não estava lá!
Agora, passados trinta anos, eu sabia que fora a decisão correta. Mas fora estranho encontrar com aquele rapaz no trem, na mesma linha, no mesmo horário.
E quando o aconselhei a ir para Torres então? Ele simplesmente agradeceu o meu conselho e levantou-se, para seguir em direção as cabines. Após uns minutos eu, muito curioso, o segui. Ele havia pego outro trem!
Vai explicar uma coisa dessas. Segui sentado em minha poltrona, olhando para a paisagem, quando cruzamos com uma estação dessas novas, fora da cidade. E vi uma propaganda em holografia que me chamou a atenção. Anunciava as instalações recem-construídas de uma Universidade lá pelas bandas de Horizontina. Universidade Bundchen de Ensino. E eles já tinham o slogan:
“Você é você mesmo”
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